Quase um mês.
Quase um mês que parte de mim foi embora.
Que perdi meu porto seguro, a pessoa que eu buscava pra tudo, minha amiga, minha mãe.
Quase um mês vivenciando o luto.
Quase um mês vivenciando o luto.
Durante o luto, tudo dói. Há dias em que é quase insuportável permanecermos em nós mesmos.
E dói de tantas maneiras, e de uma forma tão profunda que eu acredito que seja impossível descrever.
Dói por dentro, rasgando o peito.
Dói silenciosamente.
Dói o tempo todo, todos os dias.
Vamos seguindo a vida, vivendo nossa dor em uma realidade paralela.
As vezes me parece injusto que a vida siga seu rumo como se nada tivesse acontecido. Como se um coração não tivesse parado de bater. Como se eu não estivesse destroçada por dentro.
As vezes me parece injusto que a vida siga seu rumo como se nada tivesse acontecido. Como se um coração não tivesse parado de bater. Como se eu não estivesse destroçada por dentro.
O sol nasce e se põe. As pessoas trabalham, as louças se sujam, filmes são lançados, vamos as compras. A vida segue.
A nossa vida segue. No momento em que tudo acontece parece que o tempo para, e a sensação é de que você nunca mais vai conseguir sorrir, nunca mais vai querer conversar, mas não é assim a dor do luto. Ela não é paralisante, Ela é constante. Pelo menos por aqui tem sido assim. Uma dorzinha constante que aparece em qualquer hora do dia, uma vontade de gritar que você engole, as lágrimas que teimam em vir aos olhos quando as lembranças chegam. E elas chegam.
Me sinto sozinha. Me sinto órfã. Apesar de ser uma mulher adulta e casada. Me sinto órfã.
Cadê minha mãe? quem vai me ajudar agora? É engraçado, pq ela vinha sendo cuidada pela gente, nos últimos dias estava totalmente dependente, e ainda assim eu me lembro claramente de nos momentos de troca de fralda, meus olhos encontravam os dela e eu sentia que podia passar por isso. Ela me fortalecia, mesmo sem dizer nada.
No último dia antes dela ser sedada, ela já não falava, eu conversei com ela segurando em sua mão, ela estava me entendendo, mas não conseguia falar. Eu disse a ela pra descansar, que ficaríamos bem. Ela apertou minha mão, sorriu e chorou. E foi a última vez que meus olhos encontraram seus olhos. Que eu senti seu toque.
É difícil perder alguém que você ama.
É muito difícil perder uma mãe.
É muito difícil e pesado perder a mãe pra um câncer.
É muito difícil, pesado e devastador perder a mãe para um tumor cerebral como o GBM.
Pq do começo ao fim você sofre. Você luta contra todos os terríveis prognósticos. Você tenta ter esperança mesmo com tantas notícias ruins. Você sofre no diagnóstico. Sofre durante a cirurgia interminável. Sobre durante a rádio e as quimioterapias. Sofre ao pegar cada resultado de ressonância. E você passa o tempo todo temendo pelos momentos finais.
Só entende o que estou dizendo quem já passou ou passa por essa luta.
Eu pedi muito a Deus que aliviasse seu sofrimento, que seus últimos dias fossem abreviados, não queria ver minha mãe em uma sonda, sofrendo dia após dia até partir. E Deus atendeu minhas preces. Mesmo assim é difícil. Por mais que você se prepare, você não está pronto. Por mais que você espere que isso vá acontecer no fundo você ainda tem uma esperança de que um milagre ocorrerá e tudo voltará a ser como antes dessa doença.
Conforme os dias passam a saudade só aperta, tudo me lembra minha mãe, sinto um aperto no peito várias vezes ao dia.
EU sempre soube que seria difícil, mas nunca imaginei que seria tão difícil.
Tem sido um período de mudanças, descobertas e muito aprendizado.
E é um processo íntimo, individual e solitário.
O luto precisa ser vivido, para não vivermos de luto.
Eu aprendi que preciso chorar. E eu tenho chorado. Não existe nada que traga maior alívio do que deixar as lágrimas caírem. Do que vivenciar os momentos de dor cara a cara. Depois das lágrimas vem aquela sensação de paz, uma saudade cheia de amor, recheada de lembranças gostosas, e eu me pego sorrindo ao lembrar de coisas que vivemos.
E pronto, lavo meu rosto e estou pronta pra seguir a vida.
E pronto, lavo meu rosto e estou pronta pra seguir a vida.
Esse é o ciclo que funciona pra mim.
Encarar o sofrimento, chorar a dor, sentir a paz e seguir a vida.
Encarar o sofrimento, chorar a dor, sentir a paz e seguir a vida.
Aprendi que ser feliz não implica em não haver nenhuma dor.
Aprendi que ser forte não é ser frio. Ser forte é passar pela dor, chorar a dor, encarar a dor e seguir em frente.
Minha mãe sempre foi minha melhor amiga.
Sempre fez todo o sentido que ELA fosse minha mãe. Não poderia ser outra pessoa.
Não pq ela era perfeita, ela nunca foi, nem nunca fingiu ser. Mas pq sempre fomos uma dupla. Sempre funcionou. E funcionou até o último dia.
Existe vida após o luto.
Uma vida mais consciente de que o tempo é curto, de que os amigos verdadeiros sempre estarão do seu lado, que família é tudo, e sobretudo a certeza de que Deus continua sendo bom apesar de tudo.
Usando as palavras de meu marido, Celso: É preciso viver o luto, para não viver de luto. As horas tristes permeiam as horas de alegria, e a isso chamamos vida! E passamos por isso! A dor e o consolo nos formam, transformam, nos conformam a Cristo! São dEle os dias mais felizes, assim como são dEle os dias mais tristes! E Ele é bom. E cuida de nós.
Usando as palavras de meu marido, Celso: É preciso viver o luto, para não viver de luto. As horas tristes permeiam as horas de alegria, e a isso chamamos vida! E passamos por isso! A dor e o consolo nos formam, transformam, nos conformam a Cristo! São dEle os dias mais felizes, assim como são dEle os dias mais tristes! E Ele é bom. E cuida de nós.
"Por sobre a estrada amanheceu e anoiteceu.
E eu vi que os dias mais sombrios também são Teus...
O fogo me queimou, mas me aqueceu.
A luz que me cegou, me fez ver Deus...
Minha'alma se fartou, sem água e pão...A mãe da esperança é a provação..."
Estevão Queiroga - música A partida e o Norte


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