Se eu tropeçasse em uma lampada mágica meu pedido ao gênio certamente seria: Quero ter um Clone. Não um clone qualquer, queria um clone verdadeiro, fisicamente, emocionalmente, de corpo e alma.
Nossa comunicação seria por telepatia, ou por troca de olhares e expressões. Sem palavras. Tudo que eu vivesse, ele viveria. Quando eu estivesse com dor de cabeça, por exemplo, ele também teria. Então juntos distribuiríamos grosserias e resmungos a todos ao nosso redor, juntos tomaríamos uma pílula e deitaríamos no escuro esperando passar. Ele entenderia minha irritação, mas não diria nada. Nem "que droga", nem "poxa vida", nem desejaria melhoras, nem faria cara de pena, nem se ofereceria pra ajudar em qualquer coisa. Apenas sentiria minha dor em silêncio, em solidariedade e compreensão.
Quando eu estivesse sem sono, ele estaria sem sono. E nós conversaríamos, riríamos, praguejaríamos até que os sonhos viessem. Nós sonharíamos as mesmas coisas, as mesmíssimas coisas. Acordaríamos no outro dia comentando o acontecido como quem comenta um filme bom, só que de forma ainda mais intensa, porque não vivenciamos bons filmes como vivenciamos bons sonhos. E nestes estaríamos lado a lado. Só nós dois compreenderíamos a verdadeira emoção de estar sendo perseguido por um lobisomem, ou de voar por todo lugar, ou o medo de estar em um elevador que nunca para. Eu saberia, ele saberia, e ninguém mais saberia. Ficaríamos felizes por causa disso, e nos ofenderíamos quando o resto do mundo negasse importância aos nossos devaneios. Mas balançaríamos a cabeça em sincronia, com dó e um pouco de desgosto, porque pobres deles que eles não estavam lá para entender…
Quando eu quebrasse uma xícara, ele quebraria outra – nós dividiríamos os olhares feios do resto da casa. E eu varreria os cacos, e ele juntaria os cacos com uma pá. E se eu ferisse meu pé num caquinho, ele se feriria noutro igual. Do mesmo formato, do mesmo tamanho. E sentiria a mesma pontada, e faria a mesma careta. Quando andássemos deixando poças de sangue pela casa, e as pessoas lançassem aquele olhar espantado, diríamos que quase não dói. Foi só um furinho, bem pequeno, não foi? Ele saberia.
Quando eu estivesse cansada, ele também estaria. Nos sentaríamos em qualquer calçada, em qualquer lugar. Talvez até tirássemos um cochilo, porque é bom tirar cochilos em companhia de alguém tão igualmente desesperado por cochilos. Nos levantaríamos na mesma hora, e seguiríamos andando, para o mesmo destino. Sem precisar trocar informações. Sem precisar chegar a acordos, sem precisar ceder vontades, sem precisar verbalizar motivos; apenas iríamos para onde quiséssemos, faríamos o que quiséssemos, e saberíamos que o outro sempre estaria lá.
Quando eu falasse sobre meus cachorros, ele também falaria sobre os dele. Com o mesmo brilho nos olhos, com o mesmo sorriso idiota, com a mesma empolgação de criança. Passaríamos tardes falando sobre cachorros, e rolando no chão com cachorros, e iríamos aos parques com eles. Não nos chatearíamos, porque gostaríamos de cachorros do mesmo jeito, e perder uma tarde dessa maneira apenas soaria correto.
Quando eu estivesse entediada, ele também estaria entediado. Não teríamos vergonha de nossas manias de velhos, portanto sorriríamos um para o outro em cumplicidade. Teríamos aquela estranha impressão de que o tédio não deve ser punido, mas lentamente apreciado. Não nos obrigaríamos a encontrar meios de matá-lo, como geralmente acontece entre pessoas ociosas. Contaríamos cada interminável segundo em branco, juntos, até que estes resolvessem partir. Porque nos sentiríamos confortáveis no silêncio, e no vazio, e na inércia mental, enquanto os outros se sentiriam aflitos.
Os outros, os bobos, os que não amam as coisas simples. Mas eu amaria, e ele amaria.
Viveríamos os melhores e os piores dias. Faríamos de tudo juntos, sempre da mesma maneira, com os mesmos resultados. Seríamos felizes e tristes ao mesmo tempo, radiantes e pessimistas também. Dividiríamos as mesmas alegrias, as mesmas desgraças, as mesmas realizações ou frustrações, com desapego e cuidado mútuos.
Então, quando eu finalmente cansasse dele, ele também já estaria cansado de mim. Longas despedidas, brigas, desculpas ou aborrecimentos não nos caberiam. Estaríamos acima disso, superiores a toda essa pequenez estafante, a toda essa balela melodramática. Nos entregaríamos num compreensivo abraço desinteressado, como consentimento silencioso, ordenando que cada um seguisse seu caminho. Sem olhar duas vezes para trás. Em direções opostas, exatamente opostas, já que tudo um dia cansa mesmo. Eu saberia, e ele saberia. Como ninguém mais poderia saber.
(Autor desconhecido, com algumas mudanças feitas por mim)


2 Comentários

Amor
Reflexões
Fé
Livros
Vida