reflexões,

Representatividade

Da série coisas que chamam de mimimi, e que se você exercitar a empatia verá que é de fato um problema. 

Ilustração: Suryara Bernardi

Eu estava agora a pouco , dando uma olhada em uma loja que vende marcadores de livros magnetizados, eles usam desenhos de personagens literários ou de filmes, desenhos de bonecas,enfim, tudo muito fofo.

Na hora busquei uma pra mim. 
Sempre escolho uma "parecida"  comigo,  no caso, branca de cabelo escuro.  
Tinham várias. 

Então pensei.
E se eu fosse negra? 
Ou morena?
Até mesmo cacheada? 

Não teria NENHUMA
NENHUMA negra,  morena,  de cabelo afro, nem ao menos de cabelos cacheados. 

E então? 
Como essas pessoas se sentem representadas?

"Ah Cibele,  que tolice" 
Normalmente quem diz isso tem a pele clara e o cabelo liso. E nunca viveu isso né?

Mas se esforce pra se colocar no lugar do outro.

Imagina uma criança  que não encontra uma boneca parecida com ela, ou uma capa de caderno, ou um simples marcador de livro.  
Enquanto pras crianças brancas tem uma enorme variedade. 

Isso é legal? 

Hoje em dia encontramos algumas bonecas negras,  mas ainda são poucas. 
Se você der um Google verá que as primeiras barbies negras são recentes,  e tinham cabelos lisos,  olhos claros e traços caucasianos. Muito recentemente é que lançaram uma Barbie negra com cabelo afro e traços condizentes. 

Imagina viver em um mundo que finge que você não existe.
Imagina ver seu filho passando por isso.
Talvez se você imaginar um pouco consiga compreender que isso está longe de ser mimimi.


"A representatividade é vital. Sem ela a borboleta rodeada por um grupo de mariposas, incapaz de ver a si mesma, vai continuar tentando ser mariposa."



dor,

Um ano voando sem ela...

Um ano sem minha mãe, minha amiga, minha referência de vida e na vida.
Um ano voando sozinha por esse mundo.
Difícil continuar sem ela, ainda tenho muito de filha em mim, sinto falta das conversas, do dia a dia.
Da presença.
A presença que permanece nas lembranças diárias, nos presentes espalhados pela casa, em cheiros, lugares e programas de TV. E no meu reflexo no espelho.

É a presença constante, com o vazio da ausência.
E isso dói todos os dias, e vai doer pra sempre.
E está tudo bem.
Pq faz parte da vida. Deus nos dá o lado feio pra que possamos valorizar o belo. Eu já disse antes e repito: se eu pudesse escolher não ter passado por toda essa dor, com outra mãe. Eu optaria por passar por tudo isso com a minha. Pq a dor de sua ausência não é maior do que as boas lembranças, do que os 36 anos que pude viver com ela.
Dói não tê-la aqui, hoje um ano depois não é mais desesperador, descobri que sou mais forte do que imaginava, mas ainda assim dói.

Nesse um ano sem minha mãe aprendi muito.
Fecho esse ciclo muito mais forte, mais fiel a mim mesma, valorizando o que realmente significa e vivendo tudo com mais intensidade, pois hoje carrego em mim a lição da vulnerabilidade da vida. Tudo pode mudar em um piscar de olhos.

E quando isso acontece, vc não se lamenta pelos diplomas que não obteve ou pelo dinheiro que não guardou, vc se lamenta pelas viagens que não fez, os assuntos que não finalizou e os sentimentos que não viveu.
Vc se lamenta pelo tempo perdido com mediocridades, pelos livros que não leu, os abraços que deixou de dar...

Por isso digo: Valorize o que é eterno, esteja rodeado de pessoas do bem, não force relacionamentos abusivos, não se contente com a insatisfação e frustração, recomece sempre, não tema parecer boba, perdoe, peça perdão, se livre das mágoas, zere sua conta, cuide de você e das pessoas que caminham contigo.

E não esqueça: 

Deus é bom o tempo todo.
A vida é sincera.
O que vc plantar, colherá.
E só fica o que significa.

"De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças. "
Cecília Meireles

clone,

Queria ter um Clone



Se eu tropeçasse em uma lampada mágica meu pedido ao gênio certamente seria: Quero ter um Clone. Não um clone qualquer, queria um clone verdadeiro, fisicamente, emocionalmente, de corpo e alma.
Nossa comunicação seria por telepatia, ou por troca de olhares e expressões. Sem palavras. Tudo que eu vivesse, ele viveria. Quando eu estivesse com dor de cabeça, por exemplo, ele também teria. Então juntos distribuiríamos grosserias e resmungos a todos ao nosso redor, juntos tomaríamos uma pílula e deitaríamos no escuro esperando passar. Ele entenderia minha irritação, mas não diria nada. Nem "que droga", nem "poxa vida", nem desejaria melhoras, nem faria cara de pena, nem se ofereceria pra ajudar em qualquer coisa. Apenas sentiria minha dor em silêncio, em solidariedade e compreensão.

Quando eu estivesse sem sono, ele estaria sem sono. E nós conversaríamos, riríamos, praguejaríamos até que os sonhos viessem. Nós sonharíamos as mesmas coisas, as mesmíssimas coisas. Acordaríamos no outro dia comentando o acontecido como quem comenta um filme bom, só que de forma ainda mais intensa, porque não vivenciamos bons filmes como vivenciamos bons sonhos. E nestes estaríamos lado a lado. Só nós dois compreenderíamos a verdadeira emoção de estar sendo perseguido por um lobisomem, ou de voar por todo lugar, ou o medo de estar em um elevador que nunca para. Eu saberia, ele saberia, e ninguém mais saberia. Ficaríamos felizes por causa disso, e nos ofenderíamos quando o resto do mundo negasse importância aos nossos devaneios. Mas balançaríamos a cabeça em sincronia, com dó e um pouco de desgosto, porque pobres deles que eles não estavam lá para entender…

Quando eu quebrasse uma xícara, ele quebraria outra – nós dividiríamos os olhares feios do resto da casa. E eu varreria os cacos, e ele juntaria os cacos com uma pá. E se eu ferisse meu pé num caquinho, ele se feriria noutro igual. Do mesmo formato, do mesmo tamanho. E sentiria a mesma pontada, e faria a mesma careta. Quando andássemos deixando poças de sangue pela casa, e as pessoas lançassem aquele olhar espantado, diríamos que quase não dói. Foi só um furinho, bem pequeno, não foi? Ele saberia.

Quando eu estivesse cansada, ele também estaria. Nos sentaríamos em qualquer calçada, em qualquer lugar. Talvez até tirássemos um cochilo, porque é bom tirar cochilos em companhia de alguém tão igualmente desesperado por cochilos. Nos levantaríamos na mesma hora, e seguiríamos andando, para o mesmo destino. Sem precisar trocar informações. Sem precisar chegar a acordos, sem precisar ceder vontades, sem precisar verbalizar motivos; apenas iríamos para onde quiséssemos, faríamos o que quiséssemos, e saberíamos que o outro sempre estaria lá.

Quando eu falasse sobre meus cachorros, ele também falaria sobre os dele. Com o mesmo brilho nos olhos, com o mesmo sorriso idiota, com a mesma empolgação de criança. Passaríamos tardes falando sobre cachorros, e rolando no chão com cachorros, e iríamos aos parques com eles. Não nos chatearíamos, porque gostaríamos de cachorros do mesmo jeito, e perder uma tarde dessa maneira apenas soaria correto.

Quando eu estivesse entediada, ele também estaria entediado. Não teríamos vergonha de nossas manias de velhos, portanto sorriríamos um para o outro em cumplicidade. Teríamos aquela estranha impressão de que o tédio não deve ser punido, mas lentamente apreciado. Não nos obrigaríamos a encontrar meios de matá-lo, como geralmente acontece entre pessoas ociosas. Contaríamos cada interminável segundo em branco, juntos, até que estes resolvessem partir. Porque nos sentiríamos confortáveis no silêncio, e no vazio, e na inércia mental, enquanto os outros se sentiriam aflitos.
Os outros, os bobos, os que não amam as coisas simples. Mas eu amaria, e ele amaria.

Viveríamos os melhores e os piores dias. Faríamos de tudo juntos, sempre da mesma maneira, com os mesmos resultados. Seríamos felizes e tristes ao mesmo tempo, radiantes e pessimistas também. Dividiríamos as mesmas alegrias, as mesmas desgraças, as mesmas realizações ou frustrações, com desapego e cuidado mútuos.

Então, quando eu finalmente cansasse dele, ele também já estaria cansado de mim. Longas despedidas, brigas, desculpas ou aborrecimentos não nos caberiam. Estaríamos acima disso, superiores a toda essa pequenez estafante, a toda essa balela melodramática. Nos entregaríamos num compreensivo abraço desinteressado, como consentimento silencioso, ordenando que cada um seguisse seu caminho. Sem olhar duas vezes para trás. Em direções opostas, exatamente opostas, já que tudo um dia cansa mesmo. Eu saberia, e ele saberia. Como ninguém mais poderia saber.


(Autor desconhecido, com algumas mudanças feitas por mim)

mãe,

Sobre perdas.





Perda.
Essa foi uma palavra que ouvi bastante nos primeiros dias após a partida da minha mãe. 
"Sinto muito por sua perda", uma frase que muitos falavam, seguida daquela expressão de pena, um abraço e um silêncio desconfortável.
Esse é o problema da morte.
As pessoas não sabem como agir,as pessoas não sabem o que dizer, e acabam repetindo o que acham que deve ser dito. 
"Ela está em um lugar melhor" - mas eu queria ela aqui.
"Ela foi uma heroína" - ela não precisava morrer pra ser.
"Ela estará sempre com você" - desculpa, isso não alivia em nada a minha DOR.
"Seja forte" - ok, apertarei o botão da força aqui.
"Sinto muito por sua perda". 
Vamos lá, vamos analizar esse termo. 

No dicionário "perda" é:

1.ato ou efeito de perder (alguém).
2.privação de uma coisa (alguém) que se possuía.
3.ausência, falta, desaparecimento.

Creio que sejam definições bastante precisas. Exceto pelo fato que a morte de alguém que vc ama, no meu caso, minha mãe, não causará sua ausência. Minha mãe continua por toda parte. Nos programas de tv que ela gostava, nas lembranças que o facebook trás, nas piadas que sei que ela riria, no toque do telefone pela manhã, e está principalmente no meu rosto todas as vezes que olho no espelho. 
Ela continua presente. Dolorosamente presente. 
Pq sim, ela está aqui. Mas ela não está aqui. 
E hoje, após quase um ano, isso é totalmente administrável. Mas as vezes, no meio do dia, uma onda me atinge e sinto um vazio absurdo no peito, um vazio que se instalou desde que ela morreu. A perda faz isso, vc consegue conviver, manter a cabeça acima d´água na maior parte do tempo, vc está bem seguindo sua vida, sorrindo, leve e em paz e de repente é como se alguém enfiasse o dedo na ferida e apertasse com toda a força. Momentos em que a tristeza vem de repente e com força. Sorrateira e ardilosa, chega sem avisar e a gente só se dá conta quando sente o coração apertado e o nó na garganta. 
A vulnerabilidade da vida. 

Uma das frases mais tolas que já ouvi, e que as pessoas repetem como se fosse verdade, é:
"O tempo ameniza a dor" - Não, a dor permanece a mesma, ela não ameniza. Inclusive as saudades aumentam conforme os dias passam. Mas vc aprende a lidar. Vc aprende a seguir em frente, aprende a enxergar o que não pode ser mudado com resignação. Você consegue até mesmo seguir em paz e se conformar. Mas a dor permanece. Em alguns dias ela virá como lembranças boas, de forma nostálgica e tranquila.
Em outros dias ela virá dilacerante, com muito choro.
E vc deve aprender a respeitar cada dia. Quer chorar? chora.
Tudo bem que já faz um ano, dois, cinco, dez. 
Chora.
Chora tudo que tiver que chorar, se abrace, sinta profundamente. Depois levanta, lava o rosto e segue em frente.

O que aprendi até aqui?
Aprendi que a gente só entende certas coisas quando vivencia. 
Aprendi que muitas vezes não preciso dizer nada, um abraço e um "estou aqui" valem mais do que frases de efeito. 
Aprendi que o tempo ensina, mas não muda, nem apaga cicatrizes.
Aprendi que minha vida nunca mais será a mesma. 
Essa é minha nova realidade. Sou uma filha, sem mãe. E serei assim pra sempre. E sentirei falta pra sempre. E vai doer pra sempre. 
Estarei com 60 anos e sentirei uma dorzinha sempre que olhar minhas amigas de 60 anos com suas mãezinhas de 90. Pq a minha não estará do meu lado, apesar de estar presente na minha vida, lembranças e coração. Pra sempre. 





aniversário,

3.7



Cheguei aos 37.
Quase 40. 
No pior ano da minha vida, o ano em que mais chorei, o ano que perdi minha mãe, minha referência. O ano em que tive que me reencontrar. Tanto emocionalmente quanto espiritualmente. 
Nesse processo de "volta pra casa" tenho estabelecido algumas premissas.  

Quero ser grata. Apesar de tudo, busco um coração grato pois sei que Deus está no controle de tudo.
Não tenho medo do pensam (ou falam) sobre mim, isso não define quem eu sou.
A  perfeição é uma corrida perdida, não me desgasto por isso. 

Mais que "um corpo" eu amo o "meu corpo", não me comparo com ninguém. 
Não bajulo ninguém, não tento agradar os que não gostam de mim. 
Não discuto com os falsos, sigo sabendo onde piso. 

Prezo pelo silêncio e pela minha própria companhia, fujo dos holofotes.
A voz alta querendo ter razão foi sendo substituída por olhos observadores. 
Respeito meus defeitos, mas não me apego a eles, reconheço minhas qualidades mas não levanto nenhuma como troféu. 

Amigos são presentes. Mesmo que não estejam presentes. 
Cada pessoa tem sua história, suas dores e suas flores. 
Antes eu queria impor minhas vontades, hoje aprendi a ouvir, a ceder e a compreender. 
Menos tumultos, perdi o medo das solidões. 
Sobre a solidão, creio que a palavra aqui é critério. Ninguém precisa de raspas e restos apenas pra não ficar só, temos que ser criteriosos, buscar a reciprocidade e a sincronicidade. Mas, é preciso se avaliar, olhar ao redor e se perguntar se você tem tratado o outro com zelo, empatia e compaixão. Sem isso não existe amizade. Relacionamento nenhum sobrevive ao egoismo e egocentrismo.

Prezo a verdade e a lealdade; ainda tenho minha acidez e vez ou outra, minhas mãos devolvem o tapa depois de ter minha outra face vermelha de tanto apanhar. Ainda sou imatura e cometo falhas levianas. 
Mas sei que evoluí. 
Tenho muitos anos ainda para crescer (que Deus me permita) e, outra coisa que aprendi com a idade, foi a me fazer, somente a mim, de referência de comparação.
Não existe um tempo para recomeçar, nem para começar. 
Meu tempo é hoje.


reflexões,

Treino pesado, coração leve.



Quando entrei na academia Overall a primeira vez, há menos de um ano, me senti totalmente deslocada, me vi em meio a mulheres lindas e homens enormes, e pensei: "o que estou fazendo aqui?". Mas depois de várias tentativas frustradas eu estava decidida a não desistir. Dessa vez eu iria até o fim. 

No começo me refugiava no aeróbio, onde me sentia segura. 
De vez em quando arriscava um treino de leve. 
Me despi de meus preconceitos e fui percebendo que as pessoas ali eram muito mais do que corpos bonitos,passei a admirar e a me inspirar em cada um.

No início do ano decidi levar mais a sério e tentar gostar de verdade da musculação, mas havia uma pedra no meio do caminho. Uma pedra na vesícula. Pedra retirada, 3 meses de repouso e em abril voltei com tudo. 
Bom,quase com tudo. 
Passei por um turbilhão, a recidiva do câncer de minha mãe, sua piora diária, passei semanas sem pisar na academia,e então no final de maio, após a tempestade, voltei. 
E de lá pra cá só aumenta a certeza de que escolhi o melhor caminho. 
Hoje a academia não é apenas o lugar onde eu treino. Virou parte da minha vida, minha terapia. 

Eu percebi que só dependia de mim. Idade, hipotireoidismo,coluna lascada, doença e morte da minha mãe eram só algumas desculpas que eu poderia usar. Poderia me esconder atrás delas e fugir. Mas eu decidi fazer isso por mim. 
Porque Deus me deu um corpo com um emaranhado incrível de músculos e sistemas (circulatório, respiratório), potentes e incríveis, que obviamente não foram feitos pro sedentarismo. O treino intenso, a exaustão,as pernas bambas,o coração na boca. Aquela sensação de "vou morrer, não aguento mais" que seu corpo responde com: "Continue, você aguenta sim.Muito mais". 
Eu amo isso. Isso me faz um bem absurdo, que vai muito além do físico. 

Há uma certa alegria em encostar o meu queixo no nariz e respirar fundo. 
Gosto de sentir as dores no corpo que o treino pesado me trouxe. Gosto de sentir que há vida. 
Gosto de me sentir viva. 
Tenho passado meus dias assim, bem viva. 
Com aquela sensação de que tenho seguido em frente. 
Cada dorzinha que sinto na musculatura me lembra exatamente disso. Que estou viva. Que a vida segue. Que estou me amando, me cuidando, vencendo meus limites.
Que eu não desisti.
Que amanhã é um novo dia, e eu vou novamente dar conta do dia.
Dar conta do sorriso.Da coluna alongada. Do treino intenso. Da calma na alma e do olhar tranquilo. Em paz. 



Não quero faca, nem queijo. Quero a fome. (A.Prado)


reflexões,

Resiliência



Estava pensando sobre superação, resiliência.
Não me lembro muito de tudo que já passei. Esses dias andei pensando nisso, lembrei de algumas coisas. De como a casa em que cresci era simples, móveis velhos, a cozinha não tinha nem forro. Me lembro do quarto dividido com minha mãe e 2 tias. As coisas amontoadas, livros velhos. Lembrei que até os 5 anos dividia a cama com minha mãe, e logo cedo ela ia trabalhar e eu pulava pra cama dos meus avós. E eu gostava de tudo isso. Refrigerante era coisa de fim de semana. Jantar fora só se fosse no quintal. TV era uma pequena pra casa toda. Telefone um luxo que demoramos a ter. Lembro da casa de chão vermelho que fomos morar depois, lembro da minha mãe encerando com gosto, ariando as poucas panelas, fazendo toalhas pra cobrir os móveis velhos e riscados. Lembro das roupas e perfumes que revezávamos. A casa se desfazendo de velha, as idas ao brechó e loja de móveis usados.
Lembro que eu escrevia muito em cadernos, até ganhar uma máquina de datilografar usada pra escrever os livros que nunca terminei. Ficaram nas caixas de papelão embaixo da cama.
Lembro da Mari brincando com meus brinquedos velhos. Lembro que trocava a educação física pra trabalhar na biblioteca da escola em troca de livros. Lembro que juntava dinheiro por meses pra comprar um jeans. Lembro que apesar de tudo isso nunca tive vergonha de levar meus amigos na minha casa, ainda que eles morassem em coberturas e já tivessem ido pra Disney, eu nunca tinha ido nem no Play center.
Lembro da cama que dormi da infância até sair de casa aos 27 anos. Lembro que alugava livros pois não tinha grana pra comprar. Lembro que passava horas na biblioteca pública lendo. Lembro que gastei meu primeiro salário em livros do King e cds do Raul Seixas. Lembro do meu primeiro computador aos 19 anos, que paguei em 12 vezes. Lembro do meu primeiro celular pago com dificuldade.
Lembro do milagre que eu fazia com o dinheiro pra bancar as xerox da faculdade. Lembro de quando meu vô foi embora. E depois minha vó. E lembro que tudo pareceu estranho sem eles.  Lembro que eu conheci o mar aos 24 anos.
Lembro que a vida melhorou depois que casei. Móveis e roupas novas. Viagens, jantares fora . Lembro que nada disso aplacava a dor das saudades.
Lembro qdo meu cachorro morreu aos 15 anos, e eu estava longe.
Lembro quando meu melhor amigo morreu e eu também estava longe.
Lembro da dor.
Lembro quando meu tio morreu e eu percebi que as pessoas estavam indo embora.
Lembro de quando minha mãe começou a ficar confusa. Lembro da ressonância que mudou nossa vida. Lembro de como tive medo.
Lembro da minha irmã chorando. Minhas tias desesperadas. Lembro das filas no hospital, das visitas. Lembro da minha mãe falando coisas sem nexo. Lembro de sentar no chão aguardando notícias da cirurgia. Lembro que tudo acalmou depois. Lembro do casamento da minha irmã, lembro da minha mãe entrando andando e sorrindo.
Lembro de me permitir pensar que tudo ficaria bem.
Lembro da angústia durante a radioterapia e quimioterapia. Lembro de cada visita a minha mãe e o medo de ser a última.
Lembro da última vez que conversei com minha mãe de verdade. Lembro da confusão voltando, da sensação de derrota que eu senti.
Lembro das noites em claro com ela, lembro dos banhos, troca de fraldas. Lembro do vazio. Lembro da última internação. Lembro da última vez que ela me olhou. Lembro da última vez que a toquei. Lembro dos seus olhos fechando.
Lembro da dor.
Lembro do desespero.
Lembro da despedida, do choro. Da terra caindo no caixão fechado.
Lembro de pensar na minha infância e de no meu coração ser tudo perfeito. Lembro de querer trocar todo o luxo de hoje pela vida simples e difícil que tivemos.
Lembro com clareza das saudades, pois são constantes.
Superar não é esquecer.Superar é lembrar com coração leve.
Superar é assumir a responsabilidade de quem você é, e como você vive.
Superar é seguir a vida.
É continuar sorrindo, continuar tentando, continuar.
Apesar de tudo.



A nossa história é construída no tempo, e é necessário que, com a maturidade, aprendamos a olhar para trás (ou para a frente, sei lá) e ver que quem somos é o resultado de tudo o que vivemos e do que fazemos com os erros e acertos, com os risos e os choros, com as alegrias e as dores, com as batalhas que vencemos e perdemos. Somos quem podemos ser, como diz a canção, e isso é a um só tempo, limitação e possibilidade!! Eis a beleza da vida!! Saudade é, em suma, lembrar! (Celso Boaventura )

reflexões,

Calma na Alma




Tenho sido feliz sendo eu mesma.
Silenciosa e introspectiva. Lendo sozinha, rabiscando ideias.
Estou aprendendo a lidar com meus sentimentos.
Tenho sido feliz mesmo quando percebo que por dentro há uma ferida, uma dor que vez ou outra transborda pelos olhos.
Tenho sido feliz na minha rotina.
Tem sido bom me exercitar, vencer meus limites, me alongar inteira, sentir meu corpo dolorido e vivo.
Tenho sido feliz usando meus cremes: para os olhos, para o rosto, pra hidratar a pele, os cabelos, as mãos.
Tenho sido feliz cozinhando coisas simples, tomando café enquanto assisto vídeos bobos.
Tenho aceitado cada vez mais as minhas manias. Meu jeito estranho, meio doce, meio azedo, meus gostos peculiares, meu humor sarcástico e minha sensibilidade.

Tenho sido feliz. Apesar das dores, das lutas, das saudades.
Tenho encontrado descanso e consolo pro meu Espírito quando me coloco nos braços do Pai. Esse sim, me renova, me abraça, me consola.
Tem faltado um pouco de poesia, mas sobrado vontade de fazer a vida colorida, de ter mais fé e seguir em frente.



A gente acha que não consegue atravessar o deserto da tristeza, que a tempestade nunca acaba, que a lágrima não cessa, que a dor não passa... Mas, aí Deus vem, nos dá calma pra tristeza, ameniza a tempestade, consola a lágrima, tranquiliza o coração e, pacifica o nosso ser, mesmo quando achamos que tudo é impossível.
Fran Ximenes.

egoismo,

Dona Maria Perseguida, a rainha dos Achismos.



Tem coisa mais chata e cansativa do que gente egocêntrica? Gente que acha que o Universo gira em torno de seu umbigo?
Em tempos de vitrine virtual, onde todo mundo que tem seguidores nas redes sociais vira bluógueira e coaching, a gente topa com esse tipo de gente o tempo todo.
Afinal, qualquer um que fala meia duzia de palavras bonitas ou emagrece 10 kg já se acha super importante, "subcelebridade" e logo se posiciona como Maria Perseguida, Rainha do Recalque, distribuidora de beijos no ombro.

É muito difícil lidar com esse tipo de gente.
Primeiro pq só sabem falar de si mesmos.
Seus problemas, seus dilemas, seus planos, alegrias e conquistas.
SEUS. Nunca do outro.
Segundo pq realmente acreditam que o Universo gira ao seu redor. Falam sobre auto confiança e não suportam críticas, falam sobre sinceridade e vivem uma vida inventada.

Ego é uma coisa complicada. 

Essa galera que se acha o centro do universo costuma ter o tal complexo de Perseguição.

Vivem no mundo dos Achismos e suposições.
Acha que tem sempre alguém mandando indireta pra ela, acha que tem gente falando dela o tempo todo, e acha que todos tem inveja de sua vida perfeita. E acha, acha, acha.
Acha tanto e está sempre perdida.
Perdida em suposições e contradições.

Alguém disse que: todo exagero esconde uma falta. 
E eu creio nisso.
Penso cá com meus botões que tudo que aparece com muito brilho, muita alegria e muito entusiasmo traz escondida uma dor ou um vazio.
Pq o ego é tão sacana que a Maria Perseguida não pode demonstrar fraquezas. É sempre forte, sempre super. Por isso é tão perseguida.
Acho triste.
De que adianta passar uma imagem biônica atômica supersônica eletrônica, mulher-maravilha se por dentro virou bagaço? Se o por dentro está em frangalhos? Me diz? Me diz se a imagem de fora condiz com a de dentro. Se você tem tanta força assim que nunca precisou de alguém. Se você é auto-suficiente.
Se vc realmente prefere a solidão, ou apenas não tem escolha.
Vc realmente ama essa vida que vc tem?
 Pq então inventa, floreia e finge, finge, finge e finge?

Vai uma dica: Ninguém passa a perna em quem não oferece perigo.
Ninguém quer sua vida sem graça, triste e sem sal.
Em que mundo você vive?
Enquanto você vive de achismos tem muita gente sendo feliz no teu lugar. Enquanto você acha que o mundo quer teu mal, o mundo nem te nota. Passa despercebida, tão sem graça, sempre vítima de tudo. Terapia , minha filha, terapia!



(cutucando o ego dos outros com vara curta!)




- Texto adaptado de um texto que encontrei na internet, estava sem autoria

maturidade,

A benção da maturidade

"O que a idade nos traz? 
Lembro quando era mais nova e adorava chamar atenção. 
A idade me trouxe a vontade de sair dos holofotes, de trabalhar nos bastidores, escolhendo o silêncio em muitas ocasiões. 
A voz alta querendo ter razão foi sendo substituída por olhos observadores. 

Hoje falo menos, muito menos. Talvez quase nada. Poucas pessoas sabem sobre minha vida, minhas lutas, medos e fraquezas. Não que eu seja orgulhosa, apenas aprendi que poucos realmente se importam, e poucos podem me ajudar de alguma forma. Já gostei de chamar a atenção, hoje prefiro conhecer o terreno onde estou pisando. Sobre ter razão, ah..nosso orgulho!!! nosso ego está sempre querendo dar a última palavra, convencer o outro e ganhar as brigas. A idade me ensinou que ter paz compensa qualquer briga ganha. É bem melhor apenas observar e se afastar. Evitar a fadiga. Esse é o lema da maturidade.

Na minha vida assumo meu palco, mas foi com a idade que aprendi que deve se ter muito cuidado para não invadir o palco do outro. Querendo espaço, muitas vezes pisamos com desrespeito o terreno que não é nosso. As plateias também não me agradam tanto. Menos tumultos, perdi o medo das solidões. Tive a curiosidade e coragem de me conhecer. E, ao saber de mim, do que me machuca e me cativa, comecei a me colocar no lugar do outro e a tratar com zelo os relacionamentos. 

Relacionamentos requerem renúncias, concessões, e uma boa dose de tolerância. Pq somos todos diferentes. Cada pessoa tem sua história, suas dores e suas flores. Antes eu queria impor minhas vontades, hoje aprendi a ouvir, a ceder e a compreender. Precisamos sim lutar pelo que acreditamos, mas bater o pé e fazer birra é coisa de criança. Sobre a solidão, creio que a palavra aqui é critério. Ninguém precisa de raspas e restos apenas pra não ficar só, creio que temos que ser criteriosos, buscar a reciprocidade e a sincronicidade. Mas, é preciso se avaliar, olhar ao redor e se perguntar se vc tem tratado o outro com zelo, empatia e compaixão. Sem isso não existe amizade. Relacionamento nenhum sobrevive ao egoismo e egocentrismo dos dias atuais.

Ainda sou eu. Prezo a verdade, a lealdade, ainda tenho minha acidez e vez ou outra, minhas mãos devolvem o tapa depois de ter minha outra face vermelha de tanto apanhar. Ainda sou imatura e cometo falhas levianas. Mas sei que evoluí. Tenho muitos anos ainda para crescer (que Deus me permita) e, outra coisa que aprendi com a idade, foi a me fazer, somente a mim, de referência de comparação.

Sempre em frente. Me avaliando, tentando superar minhas falhas e limitações. Sei que sempre vou errar comigo mesma e com os outros, mas Deus me livre de não ser capaz de enxergar isso!!!

Estou melhor do que era antes, mas tenho um mar imenso de coisas a aprimorar. 
O importante é que tem sido gratificante ver os dias passarem e no fim da noite deitar com a consciência que dei o meu melhor, e o que não fiz, que durmo com uma vontade imensa de fazer tudo o que posso no dia seguinte para que os objetivos sejam alcançados. Menos autocobrança sem deixar de cumprir o que devo, também. Coisas boas que a idade nos traz. 

Hoje, minha felicidade carrego em meu semblante e não mais em gargalhadas altas. Em um sorriso discreto consigo dizer ao mundo que sou feliz e estou bem. Muito bem."


( Rachel Carvalho)

reflexões,

Chorar faz bem, lava a alma.

Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar na calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta. Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente. Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá. Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento.  Martha Medeiros


Eu poderia ter escrito cada palavra desse texto da Martha Medeiros. Pq estou todinha nele. Sou essa pessoa. A pessoa que não chora, que não gosta de chorar. Que não gosta de se expor. Que não desabafa, que não precisa sofrer por dias a fio. Eu sou a pessoa que diz: "Está tudo bem" no meio de um terremoto. Isso é bom ou é ruim? Eu não sei dizer. Mas eu sou assim. 
E não sofro por ser assim. Não estou implodindo por dentro, me ressecando em rancores e mágoas, sofrendo silenciosamente. Não. Eu simplesmente aprendi a encarar a vida com resignação. Aprendi que desgraças acontecem e precisamos sobreviver a elas. Aprendi que nem sempre as coisas saem como planejamos e tá tudo bem, a gente segue em frente. Aprendi a sorrir apesar de tudo ou apesar de nada. 
Mas existem alguns momentos em que tudo transborda. Todos os sentimentos, angústias, frustrações, medos, anseios. Tudo de uma única vez. Sim amigos, por aqui é exatamente assim, não pq estou guardando e de repente explodo, e sim pq em alguns momentos minha sensibilidade está a mil, e qualquer coisa, inclusive uma unha quebrada, é suficiente pra abrir a torneira, e daí as Cataratas do Iguaçu são fracas perto do meu choro. 
Sei lá, acho que como não gosto de chorar aproveito pra chorar tudo de uma vez. 
Um dia desses aconteceu isso. Não me lembro se o que desencadeou foi um cachorro na rua ou uma mancha em uma blusa, só sei que comecei a chorar, e daí comecei a pensar. E de repente estava avaliando toda minha vida. 
Quem sou eu?
Essa é a vida que eu queria ter?
O que quero do meu futuro?
Acredito que essas perguntas são importantes de quando em vez. Pra gente dar uma boa olhada ao redor, e avaliar a si mesmo. Avaliar se vc não está apenas empurrando a vida, pq né? fazer o que? 
Sempre que isso acontece, esse tipo de reflexão, eu me permito chorar, me permito sentir tudo intensamente, me permito questionar, e depois de todas as lágrimas, todos os E SE´s eu sempre chego a conclusão de que estou exatamente onde deveria estar. 
Não onde sonhei. 
Não onde imaginei.
Mas onde deveria. 
É preciso ter esses momentos, a gente sai mais madura deles. A gente sai mais grata. Pelo menos pra mim funciona exatamente assim. Uma limpeza interna, que me renova e me fortalece pra continuar.




reflexões,

Natal, saudades e solidão.

Todo fim de ano me vejo tomada por um misto de alegria e melancolia. Alegria pq pra mim é impossível não me alegrar com as luzes, músicas e todo clima de natal. E melancolia pq sempre penso em quem não está mais aqui, e Tb pq faz quase 9 anos que estou longe de casa, e Natal é um momento que pede a presença da família e amigos.
Eu gosto de morar onde moro. Gostei de todos lugares onde morei. Gosto de mudar de cidade, de estar em um lugar novo, conhecer novas culturas. Me sinto privilegiada por poder viver isso. Mas ao mesmo tempo tenho sentido falta de "me enraizar".
Toda mudança é sempre a mesma coisa.
Depois que a empolgação da novidade passa, nos vemos em um processo de adaptação que parece não ter fim. Os dias passam, e a vida se resume a fazer planos pra conhecer lugares novos, parques e restaurantes. E nada disso aplaca a solidão. Nada disso supre a necessidade de um círculo de amizade.
Nada disso supre a necessidade de fincar raízes.
Mas eu me pergunto se isso será possível.
É tão difícil fazer novos amigos, gerar vínculos. Eu nasci, cresci e vivi toda a vida na mesma cidade, mesmo bairro e praticamente mesma rua. Meus amigos são amigos de infância. São pessoas com quem cresci. Fazer novos amigos é difícil pra mim. Ainda mais hoje em dia, quando me vejo cada vez mais criteriosa.

Eu cresci com casa cheia, minha avó teve 15 filhos, tenho muitos primos, minha casa vivia lotada, uma casa cheia de espanhóis falando alto, brigando e rindo ao mesmo tempo. Essa é a minha lembrança da infância, é assim que me sinto em casa. Como cresci no mesmo bairro sempre tive muitos amigos, então além da parentela sempre tinham amigos lá em casa. Sempre foi assim. Hoje em dia quando vou a minha cidade preciso me desdobrar em 20 pra conseguir ver todo mundo (e nunca consigo), os dias ficam tão corridos que não dou conta do celular e redes sociais.
Fico estafada, com saudades do silêncio da minha casa, da minha cidade estranha com gente esquisita que não sabe dar bom dia. Pois é, contraditório não é? Quando estou longe sinto saudades, quando estou lá fico cansada.

Quando eu era criança e adolescente de vez em quando eu entrava embaixo da cama, e ficava horas ouvindo música, lendo, escrevendo no estrado da cama ou apenas ali quieta, de olhos fechados, pensando na vida. Amava esses momentos. Eu ficava feliz da vida quando todos saiam de casa, e eu me via sozinha com meu cachorro. Eram meus momentos. Prezo por eles. Ainda hoje curto esses momentos de solidão. Pq eu amo minha própria companhia, eu e meus livros, eu e minhas músicas, eu e meus programas de TV ridículos. Eu e eu.

[Estou novamente dando voltas e não chegando a lugar algum no texto.
Na verdade só queria lançar aqui o que passa pela minha cabeça, e são tantas coisas que pode parecer confuso e meio sem pé nem cabeça. Tudo bem. Escrevo pra desabafar e não pra ser compreendida. ;)]

Essa sou eu. Uma contradição, sim eu sei.

Amo o silêncio e amo a barulheira da casa cheia.
Amo curtir minha própria companhia e amo ter família e amigos por perto.
Amo a solidão e amo estar acompanhada.
Amo o Natal e odeio alguns sentimentos que ele me trás.

Acho que na verdade o que mais odeio é não ter opção.
Não poder optar entre fazer um programa sozinha ou acompanhada, entre a casa cheia ou vazia.
Essa falta de opção é que tem me incomodado...preciso começar a mudar isso.

dor,

Sobre surpresas e dor.


Existem dois tipos de pessoas: as que amam surpresas e as que detestam.
Eu sou do segundo tipo. Detesto surpresas. Gosto de estar em terreno conhecido, de saber onde estou pisando.
Aquela coisa de vendar os olhos pra surpreender com um presente jamais funcionaria pra mim. Primeiro pq sou claustrofóbica ao extremo e segundo pq detesto surpresas.
Sabe aquele ditado: "o que os olhos não veem o coração não sente"? Nunca entendi. Prefiro ver, sentir, chorar, sofrer. Não saber talvez seja um dos piores sentimentos do mundo. Não saber pra onde vc vai, não saber o que virá ao seu encontro. Tá, mas eu comecei falando de olhos vendados e surpresas e agora estou divagando sobre coisas mais profundas...sim, pq está tudo ligado.

Quem gosta de estar no controle, gosta e pronto. Sou esse tipo de pessoa. Gosto de saber se me darão uma festa de aniversário pra me vestir adequadamente, pra preparar minhas emoções. Gosto de ter um ciclo menstrual regulado pra saber exatamente quando a  cólica chega e quando vai embora. Gosto de rotina, horários marcados e listas. Gosto de saber a verdade.Ainda que doa, Ainda que me dilacere.

Mas nem sempre as coisas acontecem como gostaríamos.
Nem sempre a vida te avisa que vai tirar seu chão. Ela simplesmente tira.
Nem toda dor avisa quando está chegando. Ela chega e pronto.

A dor pode chegar de mansinho na forma de uma enxaqueca insistente, a cólica de todo mês, uma depressão leve, as saudades de casa ou a solidão que machuca por uns dias. E vc (eu) normalmente está preparado pra esse tipo de dor. São as dores aleatórias de nossa vida, fazem parte. O ônus do bônus. Nós mulheres já nascemos preparadas pra enfrentar uma certa dose de dor diária. Somos todas candidatas a super heroínas, começando nossa carreira com a orelha furada logo nos primeiros meses de vida.
Enfim.
Dói. E tá tudo bem. Vc já espera por isso.

Então tem aquela surpresa da vida. Aquela reviravolta. Aquele tipo de dor que vc simplesmente não consegue ignorar, em um nível tão grande que bloqueia todo o resto. Tudo desaparece. E vc precisa lidar com isso. Não adianta fingir que ela não está ali
A verdade é que não tem pra onde correr. A vida vai te machucar. As vezes vc terá avisos, as vezes até outdoors brilhantes (que normalmente vc vai ignorar), mas as vezes ela te pega numa curva, distraída, e bam! Te joga no chão. E aí? Como reagir?

E eu que sempre gostei de controle, eu que gosto de saber onde piso e detesto olhos vendados, me pego as vezes maquiando a dor. Fugindo dela. Ignorando. E eis uma surpresa pra mim rsrsAs vezes penso que talvez se eu ficar quieta aqui fingindo que ela não existe, ela vá embora. Não que eu não a tenha encarado. Encarei. Olhei nos olhos da minha dor. Esmiucei cada detalhe, fui até o fundo e cheguei a conclusão de que não saber é sim um dos piores sentimentos do mundo, mas as vezes saber demais também é terrível.
As vezes é melhor ficar em um terreno incerto, pq no desconhecido pode ter medo mas tbm há esperança.


"A dor. Você só tem que sobreviver a ela, esperar que ela vá embora sozinha, esperar que a ferida que a causou, cure. Não há soluções, respostas fáceis. Você só respira fundo e espera que ela vá diminuindo. Na maior parte do tempo, a dor pode ser administrada, mas às vezes ela te pega quando você menos espera, te acerta abaixo da cintura e não te deixa levantar. Você tem que lutar através da dor, porque a verdade é que você não consegue escapar dela e a vida sempre te causa mais.”


Meredith Grey.


reflexões

Sobre Humanos.



Esses dias passeando pelas redes sociais, fui provocada a pensar no que há de mal em nós. Digo nós pois me incluo. Não porque somos todos IGUALMENTE maus, mas sim porque somos todos igualmente humanos e a crueldade é inerente do ser humano.Tanto quanto emocionalismo, carência e frustrações. 

No dia do meu aniversário recebi um monte de mensagem bonitinha de parabéns, com muitos elogios, palavras carinhosas, votos de felicidades. Normal. Todo ano a mesma coisa. Mas uma certa pessoa escreveu assim: "você é do bem". E isso me incomodou. Tive um pequeno sentimento de culpa, pois essa pessoa é alguém que me irrita e que acho chata e dispensável. Sou do bem e já pensei coisas ruins sobre essa pessoa. rsrs. 
Essa discrepância entre quem somos e como as pessoas nos veem não incomoda ninguém? só a "diferentona" aqui?

Eu olho pra mim mesma e me vejo como um paradoxo. Geneticamente bipolar. Penso bobagens por minuto, ai de mim se meus pensamentos virassem um filme!!! Acho as pessoas chatas e depois as amo. Detesto a existência e presença de certas pessoas, mas me dói ficar longe. Sofro por pensar o mal com mais frequência do que deveria (ou aceitaria). Me corrijo mentalmente com constância. Porque não quero o mal. Não quero que ninguém seja atropelado ou suma do mapa. Mas é inevitável pensar isso as vezes. Pelo menos por aqui, quando tiro as máscaras, consigo admitir que isso acontece.

Por isso fico tensa quando me dizem que sou boa. Vem logo o impulso de responder:"sou nada, sou péssima, egoísta e maldosa". 
Mas me parece que hoje em dia (ou sempre foi assim?) até admitir isso é perigoso. 
Está todo mundo tão mascarado, e ocupado em ser e parecer perfeito, bem resolvido, feliz e altruísta que ninguém pode admitir sua própria maldade, seu egoísmo e seus pensamentos cruéis. Todos precisam ser,e demonstrar,e anunciar que são ótimos amigos, ótimos cônjuges, ótimos profissionais. 

Eu queria ser um monte de coisa. Queria ser calma, tolerante, contida, amorosa. Queria nunca na vida pensar ou falar mal de ninguém. Queria ver sempre o lado bom de tudo e de todos. Mas acontece que na prática não é bem assim. Eu não digo que não tento. Claro que tento, me arrependo e me constranjo quando me percebo cruel em certas situações. Mas se eu deixar o barco fluir o que predomina é o egoísmo, e o egoísmo é a fonte de toda maldade, 

E eu suspeito que não sou a única. 


“Talvez quanto mais tentamos ficar alegres, mais confusos ficamos. Até não nos reconhecermos mais. Ao invés disso continuamos sorrindo, tentando ser a pessoa feliz que queríamos ser! Até que a ficha cai, sempre esteve lá… não em nossos sonhos e esperanças, mas no conhecido e confortável, o familiar.”

Meredith Grey - Grey's Anatomy

amor,

O amor morre?

Pq o amor acaba?
Alias, o  verdadeiro amor acaba?
Uma amiga me perguntou isso esses dias e andei meditando a respeito. Em primeiro lugar eu não acredito que o AMOR acabe. Não o verdadeiro. Ele pode até mudar de forma, mas acabar não.  Encontrei um texto do Carpinejar e vou postar um trechinho:

"O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa. Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença. Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia. Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos. Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento. O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida. O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada. (...)"

Exatamente o que eu acredito. O amor não morre. Nós o matamos, ou deixamos morrer. 
Permitimos que ele morra pq somos omissos, pq não corremos pra socorre-lo quando percebemos que ele está indo embora. Não avisamos no primeiro sinal de fraqueza, no primeiro acidente. Simplesmente deixamos desmoronar. Vamos deixando o copo encher até transbordar. Não somos cuidadosos. Somos orgulhosos e isso faz com que deixemos o amor morrer. O orgulho nunca salvou ninguém. Pelo contrário. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
Matamos o amor pela nossa omissão, porque não suportamos o contraponto, as divergências. Não conseguimos dar o braço a torcer, não sabemos dialogar. A falta de diálogo talvez seja a forma mais eficaz de matar o amor. Quanta tolice!!! Deixar morrer o amor por não saber ser transparente e por na mesa seus desejos, fraquezas e limitações!! Não suportamos a ideia de que nos conheçam verdadeiramente. É realmente muito difícil deixar as máscaras de lado. Matamos porque é mais fácil do que ser sincero. Matamos pq sempre queremos os elogios e não suportamos a verdade. Não conseguimos admitir nossos erros, e não somos capazes de perdoar os erros do outro. 
É impossível o amor sobreviver em um terreno assim. É impossível construir, cultivar e manter o amor quando não estamos bem resolvidos com a gente mesmo. Quando temos traumas, medos e principalmente quando não estamos dispostos a vencer isso. 

Não, o amor não morre.
O amor é assassinado. 
O amor é negligenciado. 
E nós somos os responsáveis por isso. 

amigos,

Pessoas raras



Em um mundo onde raras pessoas realmente se importam é bom saber que temos com quem contar.
São poucos.
Bem poucos.
São muitos que querem ser ouvidos, poucos que escutam.
Muitos que querem dividir suas mazelas, Poucos que querem saber como vc está. 
Eu conto nos dedos quantos: " VOCÊ PRECISA DE ALGO?" eu ouvi na vida.
Mas poderia enumerar mais de 100 "preciso de você" que recebo.
O ruim de ser sempre solicita é que quando vc precisa só escuta o ECO.


Tenho uns poucos e bons ouvidos. Sou grata a Deus por eles. Grata por cada amigo que consegue entender meu silêncio.

E tenho me cansado um pouco dos que só querem Meus ouvidos. Um dia desses baixo as portas e fecho meu "consultório". Não por mágoas, só por cansaço mesmo.

Deus sabe.

eu por mim mesma,

Mais de mim...


Eu sempre fui muito reservada. Pouca gente sabe da minha vida. Não alardeio minhas conquistas, aprendi que muita gente não quer nosso bem, tem também os que nos querem bem, mas sentem uma pontinha de inveja quando nos veem voar alto demais. Não grito minha dor pra quem não tem remédio pra curar, paciência pra ficar ao meu lado até a ferida cicatrizar. Aprendi, também, que o amor tem voz própria. Se alguém me olhar, por um instante que seja, conseguirá perceber o amor na leveza dos meus passos, na frouxidão do meu riso, na ternura que tenho trazido no peito. Isso basta. Não preciso gritar ao mundo inteiro o que cabe só a mim e a quem eu amo. Minhas maiores conquistas aconteceram quando eu fiquei quietinha, quando estive nas batalhas que ninguém me viu lutar. Quanto mais os outros sabem da nossa vida, mais querem saber. Não gosto disso, nem dou aos outros essa liberdade. Converso com um monte de gente, mas confio em pouquíssimos. Minha mãe me ensinou isso desde criança, mas só aprendi depois de quebrar a cara algumas vezes. Olha, se eu ganhar ou perder, a dor é minha, o problema é meu. Eu sou feliz, sim. Eu choro, sim. Eu amo, saio, me divirto… Só não me exponho tanto, nem sou obrigada a isso. Minha vida não é espetáculo.


- Drica Serra, a menina e o violão

aniversário,

O que eu quero de aniversário.



Eu quero ter mais fé. Quero confiar e me alegrar em meio a adversidades. Quero sabedoria, discernimento e temperança. Quero ser encontrada fiel. Quero me afastar cada vez mais do que é perecível e valorizar o que é Eterno. Quero reciprocidade. Sincronicidade. Eu quero engolir rejeições, chorar alegrias, rir tristezas, despir a alma, gritar verdades, sussurrar declarações de amor, entender os porquês, e quando não entender ficar tranquila assim mesmo. Quero saber amar meus amigos e principalmente os inimigos. Quero não me importar, quero largueza de fé e pessoas que confiam em mim. Eu quero confiar nas pessoas, quero mais dias de Sol com noites de chuva. Quero nunca me cansar. Quero me cansar e ter direito há um mês em uma Ilha Paradisíaca cheia de paisagem bonita, cheia de um azul sem fim. Quero a contradição. Quero o bonito e o azul em mim. Que os dias nunca pareçam longos, que a Graça nunca pareça pouca. Quero luz dentro e fora de mim, quero paz por todos os lados. Quero conseguir ser única e leve em um mundo de pessoas tão iguais, tão alienadas, tão cheias de si.

Quero me empolgar, me estressar, me amar assim como sou, empolgada e estressada na mesma quantidade. Quero tomar um banho de amor e compaixão para que todos os sentimentos ruins desçam pelo ralo. Quero compartilhar pensamentos sem medo do que possam pensar,quero ao meu lado pessoas que entendam meus surtos e me amem apesar deles. Quero picar a minha dor e colocá-la em uma caixa que não tem como ser aberta novamente. Quero picar a minha alegria e dividir com aqueles que amo. Quero alegria sem fim e tristeza com fim. Conversas sem hora para terminar, beijos sem ter o que pensar, abraços onde eu possa morar.

Quero um jarro transparente cheio de gérberas laranja no canto do meu quarto. Quero conversar sem me importar. Quero ser sincera. Quero que não se ofendam com a minha sinceridade (que acreditem nela também.) Quero banhos de chuva e luau com amigos, quero cachorros e gatos de todos os tamanhos, de raça e sem raça. Quero o fim das gaiolas. Quero que não exista mais ninguém morando nas ruas, nem humanos, nem bichos. Quero sempre ter esperança. Quero levar tombo e rir da vida porque nem ela sabe quanta gente tenho para me ajudar a levantar. Que meus olhos sejam bons, que meus lábios não sejam maldizentes. Quero guardar meu coração.

Quero amigos sinceros, dias claros e noites estreladas. Quero pintar o céu com lápis de cor em dias cinzas, quero descansar na paz que excede todo entendimento. Quero algodão-doce e vida doce, quero o doce entrando em minhas veias até me dar náusea e só me restar colocar para fora essa poesia toda, entalada em algum lugar de mim. Que seja doce! Que EU seja doce pra que tudo ao meu redor se adoce!

Que eu confie sempre em Deus, que eu confie em Sua Palavra e busque Sua presença. Que Ele complete a boa obra que começou em mim e que Ele renove em mim um coração GRATO todos os dias ! Que não falte azeite, que não falte amor, que não falte entrega e que eu caminhe sempre na dependência total dAquele que me amou primeiro!!


(Peguei um texto da Noemyr Gonçalves e adaptei pra mim!!)

amor,

Pense MAIS! Ame MAIS! ...e melhor.

(...)E o mote de mais uma propaganda pós-moderna que insiste em empurrar a tolerância intolerante estava estampada nos outdoors da cidade: Pense menos! Ame mais! 

Em outras palavras, a mensagem era: não seja tão crítico, simplesmente aceite. Como se o criticismo, o pensamento racional fosse contra a nova ideologia do ‘tudo pode e ponto final’. E essa é realmente a verdade. A lógica pós-moderna nos obriga a largar tudo: valores, princípios, pressupostos, lógica e até a razão - simplesmente pelo bem do pós-modernismo. 

Querem esvaziar a nossa mente, que sejamos acéfalos. Será mesmo sério? Agora faz mal pensar? Afinal, a razão é inimiga do amor? De onde tiraram essa ideia tão tosca e sem sentido? 

A falsa compreensão de amor como sentimentalismo barato quer empurrar a ideia de que pensar demais estraga o amor. É a mesma lógica dos que dizem “siga o seu coração” ensinando que não se deve pensar racionalmente antes de tomar alguma decisão e esquecendo o quão enganoso é o coração e o quanto o emocionalismo nos faz ver as coisas distorcidas e fora de perspectiva. 

Um amor sem compreensão, sem entendimento, sem racionalização é um amor capenga, infantil, imaturo. É um amor de momento, sujeito às variações do nosso humor e dos nossos sentimentos. É um amor sem fundamento, sem convicção. 'Por que você ama?' 'Não sei, só amo'. Não acredito que isso seja verdadeiramente amor. 
Se amar significa agir pelo bem do outro é extremamente necessário que eu pense, e pense muito, em como posso cumprir de forma plena essa tarefa. Pensamos pelo bem do amor. A nossa mente alimenta o amor. O pensamento é essencial para um amor verdadeiro e saudável. 

Amor sem razão não é amor, é sentimentalismo barato que não vale de nada.
É esse tipo de amor que querem? Eu digo: ame mais, mas pense mais! Pense, pense muito, pense bem, pense biblicamente. Assim você vai saber o que é amar. Assim você vai poder verdadeiramente amar e amar melhor.



Renata Veras.

reflexões

Eternamente responsável.

Como posso ser eternamente responsável por alguém, dando a vida tantas voltas? O eterno é pra sempre e o pra sempre, cá entre nós, é muito tempo. Confesso que sempre que lia essa frase de Exupéry, concordava, mas 'com o pé atrás'. Será que é isso mesmo? Hoje vejo que é. Para ser considerado 'eternamente responsável' por alguém, você deve cativar essa pessoa. Cativar requer entrega, carinho, confiança. Quando você cativa uma pessoa não é necessário que isso seja dito, pois é possível, antes de mais nada: SENTIR, logo quando vão chegando as 4h da tarde.

Ser 'eternamente responsável' é muito mais do que ligar todo dia, estar sempre por perto, cuidar o tempo todo. Isso faz parte, mas não é tudo. Você pode falar toda hora, ligar todo dia pra desejar boa noite e logo mais pra desejar bom dia e não ter criado laço algum com essa pessoa. Ou ter criado. Mas o laço tem duas pontas. E é preciso um de cada lado fazendo esforço pro laço não virar simples fita. Puxou, já era.
Para sermos responsáveis por alguém, devemos estar bem com nós mesmos, para que a energia que nos envolve no momento de plenitude seja passada para a outra pessoa. Não devemos colocar os problemas dos outros em primeiro lugar. Quando estamos bem o mundo nos sorri e os problemas diminuem.
As pessoas são eternamente responsáveis pelas histórias que nos deixaram, pela saudade que aquece a alma quando lembramos de alguém especial em nossa vida. A gente não precisa nem mesmo conversar com essa pessoa todo dia. Eternamente responsáveis são aqueles que compartilham bons momentos (e também os ruins), os que ficam contentes em saber que a pessoa cativada está feliz, não importando onde nem porque, se essa felicidade foi dividida com você ou não.
E é aí que entra a melhor e maior definição de amor: "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." Assim é o cativar. No final das contas algo simples, mas que requer esforço: Amar o próximo e querê-lo bem além de qualquer coisa. Saber que podem se passar 100 anos e mesmo assim você lembrará daquela pessoa com carinho ou a tratará da mesma forma apesar de. Cativar é quando a gente sabe diferenciar um chapéu de uma jiboia com elefante na barriga. A raposa é só a nossa consciência dizendo o que a gente já sabe.

Noemyr Gonçalves