maturidade,

A benção da maturidade

"O que a idade nos traz? 
Lembro quando era mais nova e adorava chamar atenção. 
A idade me trouxe a vontade de sair dos holofotes, de trabalhar nos bastidores, escolhendo o silêncio em muitas ocasiões. 
A voz alta querendo ter razão foi sendo substituída por olhos observadores. 

Hoje falo menos, muito menos. Talvez quase nada. Poucas pessoas sabem sobre minha vida, minhas lutas, medos e fraquezas. Não que eu seja orgulhosa, apenas aprendi que poucos realmente se importam, e poucos podem me ajudar de alguma forma. Já gostei de chamar a atenção, hoje prefiro conhecer o terreno onde estou pisando. Sobre ter razão, ah..nosso orgulho!!! nosso ego está sempre querendo dar a última palavra, convencer o outro e ganhar as brigas. A idade me ensinou que ter paz compensa qualquer briga ganha. É bem melhor apenas observar e se afastar. Evitar a fadiga. Esse é o lema da maturidade.

Na minha vida assumo meu palco, mas foi com a idade que aprendi que deve se ter muito cuidado para não invadir o palco do outro. Querendo espaço, muitas vezes pisamos com desrespeito o terreno que não é nosso. As plateias também não me agradam tanto. Menos tumultos, perdi o medo das solidões. Tive a curiosidade e coragem de me conhecer. E, ao saber de mim, do que me machuca e me cativa, comecei a me colocar no lugar do outro e a tratar com zelo os relacionamentos. 

Relacionamentos requerem renúncias, concessões, e uma boa dose de tolerância. Pq somos todos diferentes. Cada pessoa tem sua história, suas dores e suas flores. Antes eu queria impor minhas vontades, hoje aprendi a ouvir, a ceder e a compreender. Precisamos sim lutar pelo que acreditamos, mas bater o pé e fazer birra é coisa de criança. Sobre a solidão, creio que a palavra aqui é critério. Ninguém precisa de raspas e restos apenas pra não ficar só, creio que temos que ser criteriosos, buscar a reciprocidade e a sincronicidade. Mas, é preciso se avaliar, olhar ao redor e se perguntar se vc tem tratado o outro com zelo, empatia e compaixão. Sem isso não existe amizade. Relacionamento nenhum sobrevive ao egoismo e egocentrismo dos dias atuais.

Ainda sou eu. Prezo a verdade, a lealdade, ainda tenho minha acidez e vez ou outra, minhas mãos devolvem o tapa depois de ter minha outra face vermelha de tanto apanhar. Ainda sou imatura e cometo falhas levianas. Mas sei que evoluí. Tenho muitos anos ainda para crescer (que Deus me permita) e, outra coisa que aprendi com a idade, foi a me fazer, somente a mim, de referência de comparação.

Sempre em frente. Me avaliando, tentando superar minhas falhas e limitações. Sei que sempre vou errar comigo mesma e com os outros, mas Deus me livre de não ser capaz de enxergar isso!!!

Estou melhor do que era antes, mas tenho um mar imenso de coisas a aprimorar. 
O importante é que tem sido gratificante ver os dias passarem e no fim da noite deitar com a consciência que dei o meu melhor, e o que não fiz, que durmo com uma vontade imensa de fazer tudo o que posso no dia seguinte para que os objetivos sejam alcançados. Menos autocobrança sem deixar de cumprir o que devo, também. Coisas boas que a idade nos traz. 

Hoje, minha felicidade carrego em meu semblante e não mais em gargalhadas altas. Em um sorriso discreto consigo dizer ao mundo que sou feliz e estou bem. Muito bem."


( Rachel Carvalho)

reflexões,

Chorar faz bem, lava a alma.

Comecei a ficar mais atenta às verdadeiras razões dos meus choros, que, aliás, costumam ser raros. Já aconteceu de eu quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à-toa. É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a ocasião para sentar na calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma fratura exposta. Qualquer coisa pode servir de motivo. Chorar porque fomos multados, porque a empregada não veio, porque o zíper arrebentou bem na hora de sairmos pra festa. Que festa, cara-pálida? Por dentro, estamos em pleno velório de nós mesmos, chorando nossa miséria existencial, isso sim. Não pretendo soar melodramática, mas é que tem dias em que a gente inventa de se investigar, de lembrar dos sonhos da adolescência, de questionar nossas escolhas, e descobre que muita coisa deu certo, e outras não. Resolve pesar na balança o que foi privilegiado e o que foi descartado, e sente saudades do que descartou. Normal, normalíssimo. São aqueles momentos em que estamos nublados, um pouco mais sensíveis do que gostaríamos, constatando a passagem do tempo. Então a gente se pergunta: o que é que estou fazendo da minha vida? Vá que tudo isso passe pela sua cabeça enquanto você está trabalhando no computador. De repente, a conexão cai, e em vez de desabafar com um simples palavrão, você faz o quê? Cai no berreiro. Evidente. Eu sorrio muito mais do que choro, razões não me faltam para ser alegre, mas chorar faz bem, dizem. Eu não gosto. Meu rosto fica inchado e o alívio prometido não vem. Em público, então, sinto a maior vergonha, é como se estivesse sendo pega em flagrante delito. O delito de estar emocionada. Mas emocionar-se não é uma felicidade? Neste admirável mundo de contradições em que a gente vive, podemos até não gostar de chorar, mas trata-se apenas da nossa humanidade se manifestando: a conexão do computador, às vezes, cai; por outro lado, a conexão conosco mesmo, às vezes, se dá. Sendo assim, sou obrigada a reconhecer: chorar faz bem, não importa o álibi. É sempre a dor do crescimento.  Martha Medeiros


Eu poderia ter escrito cada palavra desse texto da Martha Medeiros. Pq estou todinha nele. Sou essa pessoa. A pessoa que não chora, que não gosta de chorar. Que não gosta de se expor. Que não desabafa, que não precisa sofrer por dias a fio. Eu sou a pessoa que diz: "Está tudo bem" no meio de um terremoto. Isso é bom ou é ruim? Eu não sei dizer. Mas eu sou assim. 
E não sofro por ser assim. Não estou implodindo por dentro, me ressecando em rancores e mágoas, sofrendo silenciosamente. Não. Eu simplesmente aprendi a encarar a vida com resignação. Aprendi que desgraças acontecem e precisamos sobreviver a elas. Aprendi que nem sempre as coisas saem como planejamos e tá tudo bem, a gente segue em frente. Aprendi a sorrir apesar de tudo ou apesar de nada. 
Mas existem alguns momentos em que tudo transborda. Todos os sentimentos, angústias, frustrações, medos, anseios. Tudo de uma única vez. Sim amigos, por aqui é exatamente assim, não pq estou guardando e de repente explodo, e sim pq em alguns momentos minha sensibilidade está a mil, e qualquer coisa, inclusive uma unha quebrada, é suficiente pra abrir a torneira, e daí as Cataratas do Iguaçu são fracas perto do meu choro. 
Sei lá, acho que como não gosto de chorar aproveito pra chorar tudo de uma vez. 
Um dia desses aconteceu isso. Não me lembro se o que desencadeou foi um cachorro na rua ou uma mancha em uma blusa, só sei que comecei a chorar, e daí comecei a pensar. E de repente estava avaliando toda minha vida. 
Quem sou eu?
Essa é a vida que eu queria ter?
O que quero do meu futuro?
Acredito que essas perguntas são importantes de quando em vez. Pra gente dar uma boa olhada ao redor, e avaliar a si mesmo. Avaliar se vc não está apenas empurrando a vida, pq né? fazer o que? 
Sempre que isso acontece, esse tipo de reflexão, eu me permito chorar, me permito sentir tudo intensamente, me permito questionar, e depois de todas as lágrimas, todos os E SE´s eu sempre chego a conclusão de que estou exatamente onde deveria estar. 
Não onde sonhei. 
Não onde imaginei.
Mas onde deveria. 
É preciso ter esses momentos, a gente sai mais madura deles. A gente sai mais grata. Pelo menos pra mim funciona exatamente assim. Uma limpeza interna, que me renova e me fortalece pra continuar.