aniversário,

3.7



Cheguei aos 37.
Quase 40. 
No pior ano da minha vida, o ano em que mais chorei, o ano que perdi minha mãe, minha referência. O ano em que tive que me reencontrar. Tanto emocionalmente quanto espiritualmente. 
Nesse processo de "volta pra casa" tenho estabelecido algumas premissas.  

Quero ser grata. Apesar de tudo, busco um coração grato pois sei que Deus está no controle de tudo.
Não tenho medo do pensam (ou falam) sobre mim, isso não define quem eu sou.
A  perfeição é uma corrida perdida, não me desgasto por isso. 

Mais que "um corpo" eu amo o "meu corpo", não me comparo com ninguém. 
Não bajulo ninguém, não tento agradar os que não gostam de mim. 
Não discuto com os falsos, sigo sabendo onde piso. 

Prezo pelo silêncio e pela minha própria companhia, fujo dos holofotes.
A voz alta querendo ter razão foi sendo substituída por olhos observadores. 
Respeito meus defeitos, mas não me apego a eles, reconheço minhas qualidades mas não levanto nenhuma como troféu. 

Amigos são presentes. Mesmo que não estejam presentes. 
Cada pessoa tem sua história, suas dores e suas flores. 
Antes eu queria impor minhas vontades, hoje aprendi a ouvir, a ceder e a compreender. 
Menos tumultos, perdi o medo das solidões. 
Sobre a solidão, creio que a palavra aqui é critério. Ninguém precisa de raspas e restos apenas pra não ficar só, temos que ser criteriosos, buscar a reciprocidade e a sincronicidade. Mas, é preciso se avaliar, olhar ao redor e se perguntar se você tem tratado o outro com zelo, empatia e compaixão. Sem isso não existe amizade. Relacionamento nenhum sobrevive ao egoismo e egocentrismo.

Prezo a verdade e a lealdade; ainda tenho minha acidez e vez ou outra, minhas mãos devolvem o tapa depois de ter minha outra face vermelha de tanto apanhar. Ainda sou imatura e cometo falhas levianas. 
Mas sei que evoluí. 
Tenho muitos anos ainda para crescer (que Deus me permita) e, outra coisa que aprendi com a idade, foi a me fazer, somente a mim, de referência de comparação.
Não existe um tempo para recomeçar, nem para começar. 
Meu tempo é hoje.


dor,

Dor e gratidão


"Pacientemente sentei e esperei que a chuva cessasse (...). 
O calor veio aos poucos e o céu foi limpando com o tempo (...). 
O meu céu ficou azul, então... e aqui já não chove mais.”


Dia 08/11 fará seis meses que minha mãe se foi. 
Na verdade faz mais tempo, porque ela começou a ir bem antes. Até antes do diagnóstico, quando pensamos que ela estava entrando em depressão, tememos que ela estivesse com Alzheimer precoce. Esquecimentos, tristeza, choros desproporcionais, medos, confusões. 
Parece que foi ontem. De um dia pro outro tudo mudou.
Ela foi indo embora aos poucos. 
Por um lado foi bom poder ter esse tempo pra aproveitar, pra nos despedir todos os dias, pra curtir cada momento. Por outro lado foi devastador ver minha mãe deixando de ser ela mesma. 
Não me esqueço de nenhum momento, desde o diagnóstico, exames, hospital, cirurgia, quimioterapia, rádio, recidiva, os momentos finais, até a última vez que olhei nos seus olhos. 
Mas com muita alegria posso garantir que são as outras lembranças que tomam conta do meu coração. As lembranças dos dias felizes, sem doença, ou dos dias que esquecíamos da doença. E Deus nos agraciou com tantos bons momentos!

Todos os dias eu me lembro.
Seja por causa de uma música, um programa na TV, um "Bazzinga" do Sheldon, uma imagem de macaco, uma gracinha das cachorras, um filme de monstros ou uma comida que faço, algo que conheço...Me lembro dela nas pequenas coisas do dia a dia. Tenho ímpetos de telefonar todas as vezes que algo acontece na minha vida. Me lembro dela todas as manhãs, que era quando nos falávamos pelo telefone. 
As vezes, como hoje, essas lembranças transbordam pelos olhos e eu choro. Na maior parte dos dias essas lembranças tiram de mim um suspiro, em alguns momentos até um sorriso. 
Mas todas as vezes dói.

No entanto, a dor é felizmente muito diferente da depressão. 
Ela é triste, terrível, mas não deixa de ter sua esperança. A morte da minha mãe me abalou imensamente, mas não me mergulhou em trevas insuportáveis. Nunca perdi o desejo de viver, apenas por não tê-la aqui. E encontrei verdadeiro consolo em Deus e Sua palavra, também no amor do meu marido, da minha família, amigos e até de estranhos. Deus é bom!

Recentemente estive em Rio Preto, foi a primeira vez desde que ela morreu. 
Eu estava com medo, haviam centenas de lugares que eu receava ir, por estarem tão repletos de lembranças dela. Mas foi bom estar nesses lugares. Eu senti como se fosse mais uma fase do luto pra atravessar. Estar com minha irmã, meu padrasto, no apartamento, na casa das minhas tias, passar em frente a sacaria, as ruas onde ela andava, tudo me lembrava ela, e o que achei que seria dilacerador foi de certa forma confortante. Não sei explicar.
É um misto de dor e gratidão. 
Dói não ter minha mãe, mas sou imensamente grata pelo tempo que tive. Por tudo que vivemos, fizemos e sentimos. Por todas as lembranças. As boas que me fazem sorrir, e as tristes que me fazem mais forte. 

Hoje enquanto escovava os dentes, depois de uma tarde de muito choro, pude perceber que estou feliz. As coisas estão voltando ao lugar. 
Vezenquando chove por aqui, mas isso não é motivo de infelicidade. Me sinto cada dia mais forte. E sei que amanhã será mais fácil do que hoje, porque hoje foi mais fácil que ontem.

O tempo acaba trazendo o alívio. 
Mas ele não se apressa, e essa espera é uma incrível escola de crescimento pessoal. 


"E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem esperança;
E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem perseverança."