mãe,

A minha gratidão é uma pessoa.


Hoje é dia de saudades!
Três anos sem você.
Já faz tanto tempo!
Doeu tanto. Tive tanto medo de te esquecer, de deixar a vida seguir.
Achei tão injusto quando o sol nasceu, quando sorri, quando tive bons momentos.
Depois entendi que você nunca foi embora de fato, vc ainda me aquece, me ajuda a seguir, me cuida, me dá colo, daqui da sua nova morada: dentro de mim.

Como cresci minha mãe!
Como me fortaleci, como me transformei, me reinventei tantas vezes, e sei que ainda farei muito isso.
A sua morte me tirou o chão,  quase me matou junto; mas depois me trouxe tanta vida!
Aprendi tanto sobre mim mesma. Sobre a vida. Sobre Deus.

Todos os dias lembro de ti mãe, e faço dessas saudades combustível pra seguir. Encho meu coração de boas lembranças, gratidão e esperança e sigo em frente.
A todo momento vc está  presente.
Te reencontro todos os dias no espelho, em mim mesma, na Mari, nas tias.
Na vida que seguiu.
As vezes, Deus me deixa te reencontrar em sonhos, e como é bom!

Quando vc se foi, eu achei que nunca mais pararia de chorar.
Mas parei.
Ainda tenho meus dias cinzas,vezenquando as saudades vem pra judiar, o coração fica apertado, dói saber que não teremos novas lembranças, novas fotos. Aliás, a cada dia tudo fica mais distante. .
Faz tanto tempo que ouvi sua voz pela última vez, tanto tempo que rimos e conversamos.
Parece que faz séculos.
E parece que foi ontem.
As vezes parece até mentira. Quem dera fosse! .

Esses dias conversando com a Mari, lembramos da sua força! E que força!
E se hoje temos um tiquinho dessa força, é graças a você!
Aprendemos tanto contigo! Não apenas a força que vc nos ensinou a buscar em Deus, mas tbm sua força de vida, fé e resiliência. Somos tão gratas!

Obrigada mãe, por ter feito tanto.
Obrigada por ter deixado sempre seu ego de lado para nos criar pra vida.
Obrigada por todo amor plantado em nós!
Obrigada pela herança do riso frouxo.
Por nos ensinar a ter bom humor e obrigada por nos fazer fortes.

Fica tranquila aí mãezinha! Fica em paz! Não se preocupe se eu chorar as vezes. É uma forma de tirar a dor de dentro de mim. Não se preocupe, meu riso é frouxo como o seu, em pouquíssimo tempo ele reaparece.

Te amo mãe! Obrigada por tudo que me deu e deixou em mim.
Obrigada pelo exemplo de amor à vida até o último minuto.
Pelo exemplo de alegria e resignação. Obrigada por ter plantado isso em mim.


"...se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo, de novo..."

luto,

Ainda sobre saudades.


Um dia desses eu me dei conta de que há quase dois anos eu não pronuncio a palavra “mãe” referindo-me à minha, sabe?
Eu sinto tanta falta disso. Frases simples como “oi mãe tudo bem?” ou “mãe, a senhora viu fulano”? Ouvir seu: "Fica com Deus filha".
Então, isso não faz mais parte da minha vida.

Tanta coisa para ser dita a ela e tanta coisa que eu gostaria de ouvir dela...
Quando perdemos a nossa mãe, tanta coisa se agiganta dentro de nós. Fica um grito preso na garganta e uma louca vontade de voltar no tempo.
Tantos “porquês”, tantos “e se”…tantos “ah, se eu tivesse”. E assim vamos levando a vida sem o amor que era uma amostra do amor de Deus. E nos damos conta de que, aqui na terra, nenhum amor se assemelha ao dela.

Perder um amor dessa magnitude nos torna desprotegidos e assustados. Sabe, carinho de mãe é sempre aveludado, por mais ásperas que sejam as suas mãos. O cheiro dela é sempre gostoso, mesmo que ela não use perfume…é cheiro de amor.♡ Sempre que viajo de avião, por entre as nuvens, eu fantasio que estou bem perto da minha mãe. Eu a imagino sentada num banquinho olhando para o horizonte e esperando por mim, em frente a uma casinha bem simples. Na cena, todos os cachorros que tivemos um dia, estão presentes. Tem também um bule de café e bolinho de chuva. Eu chego e nos abraçamos por muito tempo. 💔

Texto: Ivonete Rosa .



Todos os dias sinto saudades da minha mãe, coisas simples do dia a dia me fazem lembrar dela.
 Seja  um programa de TV,  uma comida que ela fazia, um cheiro, uma frase, as cachorras fazendo graça,  uma notícia pra dividir. E meu reflexo no espelho.
Sempre lembro.
Sempre dói.
Um aperto no peito,  um dedo fundo na ferida. Já faz parte da minha nova vida,  a vida sem mãe,  a vida sem ela.
Mas quando vou a Rio Preto, me vejo em meio a um turbilhão de lembranças.
Andar pelas ruas que ela andava,  estar no apartamento,  com minhas tias, tão parecidas com ela.
Ela está em todos os lugares.
E não é fácil.
Mas ao mesmo tempo meu coração se enche de gratidão por ver tudo que construímos,  as memórias lindas que ficaram, o carinho sempre presente.

Dizem que o tempo cura a dor. 
Eu discordo.
Talvez o mais correto a dizer seja que o AMOR cura a Dor. O amor é capaz de transformar a cicatriz em gratidão. As saudades em lembranças gostosas, e a tristeza em esperança.
Deus é bom.
A vida é dura, mas Deus continua sendo bom.
E continua sendo Deus.

mãe,

O câncer não venceu.


E nunca digam que ela foi derrotada pelo câncer. 
O câncer pode ter levado o seu corpo, mas nunca levou o nosso amor, riso, esperança, ou alegria. 
Não foi uma “batalha”, foi apenas a vida, que muitas vezes é brutal e aleatoriamente injusta; simplesmente é assim que as coisas são às vezes. Ela não perdeu.
A maneira como ela viveu durante toda sua vida, sua alegria e fé inclusive no período com câncer, é algo que eu considero uma vitória bem grande. ♡ .

Sempre vou amar. 
Sempre vou lembrar. 
Sempre serei grata. 



°(Texto adaptado do livro Para depois que eu partir) 

dor,

Um ano voando sem ela...

Um ano sem minha mãe, minha amiga, minha referência de vida e na vida.
Um ano voando sozinha por esse mundo.
Difícil continuar sem ela, ainda tenho muito de filha em mim, sinto falta das conversas, do dia a dia.
Da presença.
A presença que permanece nas lembranças diárias, nos presentes espalhados pela casa, em cheiros, lugares e programas de TV. E no meu reflexo no espelho.

É a presença constante, com o vazio da ausência.
E isso dói todos os dias, e vai doer pra sempre.
E está tudo bem.
Pq faz parte da vida. Deus nos dá o lado feio pra que possamos valorizar o belo. Eu já disse antes e repito: se eu pudesse escolher não ter passado por toda essa dor, com outra mãe. Eu optaria por passar por tudo isso com a minha. Pq a dor de sua ausência não é maior do que as boas lembranças, do que os 36 anos que pude viver com ela.
Dói não tê-la aqui, hoje um ano depois não é mais desesperador, descobri que sou mais forte do que imaginava, mas ainda assim dói.

Nesse um ano sem minha mãe aprendi muito.
Fecho esse ciclo muito mais forte, mais fiel a mim mesma, valorizando o que realmente significa e vivendo tudo com mais intensidade, pois hoje carrego em mim a lição da vulnerabilidade da vida. Tudo pode mudar em um piscar de olhos.

E quando isso acontece, vc não se lamenta pelos diplomas que não obteve ou pelo dinheiro que não guardou, vc se lamenta pelas viagens que não fez, os assuntos que não finalizou e os sentimentos que não viveu.
Vc se lamenta pelo tempo perdido com mediocridades, pelos livros que não leu, os abraços que deixou de dar...

Por isso digo: Valorize o que é eterno, esteja rodeado de pessoas do bem, não force relacionamentos abusivos, não se contente com a insatisfação e frustração, recomece sempre, não tema parecer boba, perdoe, peça perdão, se livre das mágoas, zere sua conta, cuide de você e das pessoas que caminham contigo.

E não esqueça: 

Deus é bom o tempo todo.
A vida é sincera.
O que vc plantar, colherá.
E só fica o que significa.

"De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças. "
Cecília Meireles

mãe,

Sobre perdas.





Perda.
Essa foi uma palavra que ouvi bastante nos primeiros dias após a partida da minha mãe. 
"Sinto muito por sua perda", uma frase que muitos falavam, seguida daquela expressão de pena, um abraço e um silêncio desconfortável.
Esse é o problema da morte.
As pessoas não sabem como agir,as pessoas não sabem o que dizer, e acabam repetindo o que acham que deve ser dito. 
"Ela está em um lugar melhor" - mas eu queria ela aqui.
"Ela foi uma heroína" - ela não precisava morrer pra ser.
"Ela estará sempre com você" - desculpa, isso não alivia em nada a minha DOR.
"Seja forte" - ok, apertarei o botão da força aqui.
"Sinto muito por sua perda". 
Vamos lá, vamos analizar esse termo. 

No dicionário "perda" é:

1.ato ou efeito de perder (alguém).
2.privação de uma coisa (alguém) que se possuía.
3.ausência, falta, desaparecimento.

Creio que sejam definições bastante precisas. Exceto pelo fato que a morte de alguém que vc ama, no meu caso, minha mãe, não causará sua ausência. Minha mãe continua por toda parte. Nos programas de tv que ela gostava, nas lembranças que o facebook trás, nas piadas que sei que ela riria, no toque do telefone pela manhã, e está principalmente no meu rosto todas as vezes que olho no espelho. 
Ela continua presente. Dolorosamente presente. 
Pq sim, ela está aqui. Mas ela não está aqui. 
E hoje, após quase um ano, isso é totalmente administrável. Mas as vezes, no meio do dia, uma onda me atinge e sinto um vazio absurdo no peito, um vazio que se instalou desde que ela morreu. A perda faz isso, vc consegue conviver, manter a cabeça acima d´água na maior parte do tempo, vc está bem seguindo sua vida, sorrindo, leve e em paz e de repente é como se alguém enfiasse o dedo na ferida e apertasse com toda a força. Momentos em que a tristeza vem de repente e com força. Sorrateira e ardilosa, chega sem avisar e a gente só se dá conta quando sente o coração apertado e o nó na garganta. 
A vulnerabilidade da vida. 

Uma das frases mais tolas que já ouvi, e que as pessoas repetem como se fosse verdade, é:
"O tempo ameniza a dor" - Não, a dor permanece a mesma, ela não ameniza. Inclusive as saudades aumentam conforme os dias passam. Mas vc aprende a lidar. Vc aprende a seguir em frente, aprende a enxergar o que não pode ser mudado com resignação. Você consegue até mesmo seguir em paz e se conformar. Mas a dor permanece. Em alguns dias ela virá como lembranças boas, de forma nostálgica e tranquila.
Em outros dias ela virá dilacerante, com muito choro.
E vc deve aprender a respeitar cada dia. Quer chorar? chora.
Tudo bem que já faz um ano, dois, cinco, dez. 
Chora.
Chora tudo que tiver que chorar, se abrace, sinta profundamente. Depois levanta, lava o rosto e segue em frente.

O que aprendi até aqui?
Aprendi que a gente só entende certas coisas quando vivencia. 
Aprendi que muitas vezes não preciso dizer nada, um abraço e um "estou aqui" valem mais do que frases de efeito. 
Aprendi que o tempo ensina, mas não muda, nem apaga cicatrizes.
Aprendi que minha vida nunca mais será a mesma. 
Essa é minha nova realidade. Sou uma filha, sem mãe. E serei assim pra sempre. E sentirei falta pra sempre. E vai doer pra sempre. 
Estarei com 60 anos e sentirei uma dorzinha sempre que olhar minhas amigas de 60 anos com suas mãezinhas de 90. Pq a minha não estará do meu lado, apesar de estar presente na minha vida, lembranças e coração. Pra sempre. 





dor,

Dor e gratidão


"Pacientemente sentei e esperei que a chuva cessasse (...). 
O calor veio aos poucos e o céu foi limpando com o tempo (...). 
O meu céu ficou azul, então... e aqui já não chove mais.”


Dia 08/11 fará seis meses que minha mãe se foi. 
Na verdade faz mais tempo, porque ela começou a ir bem antes. Até antes do diagnóstico, quando pensamos que ela estava entrando em depressão, tememos que ela estivesse com Alzheimer precoce. Esquecimentos, tristeza, choros desproporcionais, medos, confusões. 
Parece que foi ontem. De um dia pro outro tudo mudou.
Ela foi indo embora aos poucos. 
Por um lado foi bom poder ter esse tempo pra aproveitar, pra nos despedir todos os dias, pra curtir cada momento. Por outro lado foi devastador ver minha mãe deixando de ser ela mesma. 
Não me esqueço de nenhum momento, desde o diagnóstico, exames, hospital, cirurgia, quimioterapia, rádio, recidiva, os momentos finais, até a última vez que olhei nos seus olhos. 
Mas com muita alegria posso garantir que são as outras lembranças que tomam conta do meu coração. As lembranças dos dias felizes, sem doença, ou dos dias que esquecíamos da doença. E Deus nos agraciou com tantos bons momentos!

Todos os dias eu me lembro.
Seja por causa de uma música, um programa na TV, um "Bazzinga" do Sheldon, uma imagem de macaco, uma gracinha das cachorras, um filme de monstros ou uma comida que faço, algo que conheço...Me lembro dela nas pequenas coisas do dia a dia. Tenho ímpetos de telefonar todas as vezes que algo acontece na minha vida. Me lembro dela todas as manhãs, que era quando nos falávamos pelo telefone. 
As vezes, como hoje, essas lembranças transbordam pelos olhos e eu choro. Na maior parte dos dias essas lembranças tiram de mim um suspiro, em alguns momentos até um sorriso. 
Mas todas as vezes dói.

No entanto, a dor é felizmente muito diferente da depressão. 
Ela é triste, terrível, mas não deixa de ter sua esperança. A morte da minha mãe me abalou imensamente, mas não me mergulhou em trevas insuportáveis. Nunca perdi o desejo de viver, apenas por não tê-la aqui. E encontrei verdadeiro consolo em Deus e Sua palavra, também no amor do meu marido, da minha família, amigos e até de estranhos. Deus é bom!

Recentemente estive em Rio Preto, foi a primeira vez desde que ela morreu. 
Eu estava com medo, haviam centenas de lugares que eu receava ir, por estarem tão repletos de lembranças dela. Mas foi bom estar nesses lugares. Eu senti como se fosse mais uma fase do luto pra atravessar. Estar com minha irmã, meu padrasto, no apartamento, na casa das minhas tias, passar em frente a sacaria, as ruas onde ela andava, tudo me lembrava ela, e o que achei que seria dilacerador foi de certa forma confortante. Não sei explicar.
É um misto de dor e gratidão. 
Dói não ter minha mãe, mas sou imensamente grata pelo tempo que tive. Por tudo que vivemos, fizemos e sentimos. Por todas as lembranças. As boas que me fazem sorrir, e as tristes que me fazem mais forte. 

Hoje enquanto escovava os dentes, depois de uma tarde de muito choro, pude perceber que estou feliz. As coisas estão voltando ao lugar. 
Vezenquando chove por aqui, mas isso não é motivo de infelicidade. Me sinto cada dia mais forte. E sei que amanhã será mais fácil do que hoje, porque hoje foi mais fácil que ontem.

O tempo acaba trazendo o alívio. 
Mas ele não se apressa, e essa espera é uma incrível escola de crescimento pessoal. 


"E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem esperança;
E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem perseverança."

câncer,

É preciso seguir em frente.


Quase um mês.
Quase um mês que parte de mim foi embora. 
Que perdi meu porto seguro, a pessoa que eu buscava pra tudo, minha amiga, minha mãe. 
Quase um mês vivenciando o luto.
Durante o luto, tudo dói. Há dias em que é quase insuportável permanecermos em nós mesmos.
E dói de tantas maneiras, e de uma forma tão profunda que eu acredito que seja impossível descrever. 
Dói por dentro, rasgando o peito. 
Dói silenciosamente. 
Dói o tempo todo, todos os dias. 

Vamos seguindo a vida, vivendo nossa dor em uma realidade paralela.
As vezes me parece injusto que a vida siga seu rumo como se nada tivesse acontecido. Como se um coração não tivesse parado de bater. Como se eu não estivesse destroçada por dentro.
O sol nasce e se põe. As pessoas trabalham, as louças se sujam, filmes são lançados, vamos as compras. A vida segue. 
A nossa vida segue. No momento em que tudo acontece parece que o tempo para, e a sensação é de que você nunca mais vai conseguir sorrir, nunca mais vai querer conversar, mas não é assim a dor do luto. Ela não é paralisante, Ela é constante. Pelo menos por aqui tem sido assim. Uma dorzinha constante que aparece em qualquer hora do dia, uma vontade de gritar que você engole, as lágrimas que teimam em vir aos olhos quando as lembranças chegam. E elas chegam. 

Me sinto sozinha. Me sinto órfã. Apesar de ser uma mulher adulta e casada. Me sinto órfã. 
Cadê minha mãe? quem vai me ajudar agora? É engraçado, pq ela vinha sendo cuidada pela gente, nos últimos dias estava totalmente dependente, e ainda assim eu me lembro claramente de nos momentos de troca de fralda, meus olhos encontravam os dela e eu sentia que podia passar por isso. Ela me fortalecia, mesmo sem dizer nada. 
No último dia antes dela ser sedada, ela já não falava, eu conversei com ela segurando em sua mão, ela estava me entendendo, mas não conseguia falar. Eu disse a ela pra descansar, que ficaríamos bem. Ela apertou minha mão, sorriu e chorou. E foi a última vez que meus olhos encontraram seus olhos. Que eu senti seu toque. 

É difícil perder alguém que você ama.
É muito difícil perder uma mãe.
É muito difícil e pesado perder a mãe pra um câncer.
É muito difícil, pesado e devastador perder a mãe para um tumor cerebral como o GBM.
Pq do começo ao fim você sofre. Você luta contra todos os terríveis prognósticos. Você tenta ter esperança mesmo com tantas notícias ruins. Você sofre no diagnóstico. Sofre durante a cirurgia interminável. Sobre durante a rádio e as quimioterapias. Sofre ao pegar cada resultado de ressonância. E você passa o tempo todo temendo pelos momentos finais. 
Só entende o que estou dizendo quem já passou ou passa por essa luta.

Eu pedi muito a Deus que aliviasse seu sofrimento, que seus últimos dias fossem abreviados, não queria ver minha mãe em uma sonda, sofrendo dia após dia até partir. E Deus atendeu minhas preces. Mesmo assim é difícil. Por mais que você se prepare, você não está pronto. Por mais que você espere que isso vá acontecer no fundo você ainda tem uma esperança de que um milagre ocorrerá e tudo voltará a ser como antes dessa doença. 

Conforme os dias passam a saudade só aperta, tudo me lembra minha mãe, sinto um aperto no peito várias vezes ao dia.
EU sempre soube que seria difícil, mas nunca imaginei que seria tão difícil. 
Tem sido um período de mudanças, descobertas e muito aprendizado.
E é um processo íntimo, individual e solitário. 
O luto precisa ser vivido, para não vivermos de luto.
Eu aprendi que preciso chorar. E eu tenho chorado. Não existe nada que traga maior alívio do que deixar as lágrimas caírem. Do que vivenciar os momentos de dor cara a cara. Depois das lágrimas vem aquela sensação de paz, uma saudade cheia de amor, recheada de lembranças gostosas, e eu me pego sorrindo ao lembrar de coisas que vivemos. 
E pronto, lavo meu rosto e estou pronta pra seguir a vida. 
Esse é o ciclo que funciona pra mim. 
Encarar o sofrimento, chorar a dor, sentir a paz e seguir a vida.
Aprendi que ser feliz não implica em não haver nenhuma dor.
Aprendi que ser forte não é ser frio. Ser forte é passar pela dor, chorar a dor, encarar a dor e seguir em frente. 

Minha mãe sempre foi minha melhor amiga. 
Sempre fez todo o sentido que ELA fosse minha mãe. Não poderia ser outra pessoa. 
Não pq ela era perfeita, ela nunca foi, nem nunca fingiu ser. Mas pq sempre fomos uma dupla. Sempre funcionou. E funcionou até o último dia. 

Existe vida após o luto. 
Uma vida mais consciente de que o tempo é curto, de que os amigos verdadeiros sempre estarão do seu lado, que família é tudo, e sobretudo a certeza de que Deus continua sendo bom apesar de tudo. 
Usando as palavras de meu marido, Celso: É preciso viver o luto, para não viver de luto. As horas tristes permeiam as horas de alegria, e a isso chamamos vida! E passamos por isso! A dor e o consolo nos formam, transformam, nos conformam a Cristo! São dEle os dias mais felizes, assim como são dEle os dias mais tristes! E Ele é bom. E cuida de nós.


"Por sobre a estrada amanheceu e anoiteceu.
E eu vi que os dias mais sombrios também são Teus...
O fogo me queimou, mas me aqueceu.
A luz que me cegou, me fez ver Deus...
Minha'alma se fartou, sem água e pão...A mãe da esperança é a provação..."
Estevão Queiroga - música A partida e o Norte

dor,

Feliz dia das mães.

"Mãe é parceira das horas certas e também incertas. É ombro nos arrependimentos e bronca construtiva nas escolhas mal feitas. Mãe é censura e também ternura, cheiro de afeto e lembrete de “engole o choro”, intuição abundante e oração incessante.

Ao nos lembrar de nossas mães, nos lembramos de quem fomos. Pois a construção e lapidação de nossa existência se confunde com antigos sons chamando no portão, cheiro de perfume conhecido borrifado nos pulsos, lembrança de arrumar a cama e tirar os pés do sofá, assobio afinado, vestido lavado e delicadeza em forma de cuidado.

Não há saudade maior que saudade de mãe. Pois mãe muda de casa, mas não sai de dentro da gente. Mãe muda de estado, mas não se desliga. Mãe percebe que o filho cresceu, mas não desiste. Mãe carimba passaporte, mas não sai de perto da gente." 
(Fabíola Simões - A soma de todos os afetos)


Meu primeiro dia das mães sem minha mãe aqui. 
Eu já conhecia as saudades da distância geográfica, mas nada se compara a não tê-la mais aqui. Nunca mais ouvirei sua voz, nunca mais receberei uma ligação ou mensagem de whatsapp, nunca mais. 
Ficam as lembranças das coisas simples, o aperto no peito quando vejo algo que ela gostava, a sensação de estar sozinha no mundo sem ninguém pra me direcionar. 
Quem vai cuidar de mim agora? 
Meu consolo vem de Deus, que é soberano e cuida dos seus. Meu consolo vem da certeza de que ela está com o Senhor. Minha paz vem do sentimento de "missão cumprida". Eu amei minha mãe e fui amada com toda intensidade e verdade possível. Sempre muito próximas, dividindo tudo. Minha mãe se foi e nossa conta estava zerada, sem mágoas, sem nada mal resolvido, sem mentiras e principalmente sem QQ dúvida do amor que sentíamos.

Se eu puder te dar um conselho, filho (a) que tem sua mãe aqui, nesse dia das mães, em vez de um presente material, sente-se com sua mãe, e feche a conta. Coloque na mesa as mágoas, segredos, e se resolvam. E principalmente não deixe de dizer e mostrar com atitudes que a ama. ❤️

Minha mãe, hoje eu gostaria de lhe oferecer uma música da minha infância. Está tudo tão distante, mas o refrão ainda ecoa em meus ouvidos. Tudo que eu mais queria era poder cantar de novo: “Mamãe, mamãe, mamãe, eu me lembro o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo, se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo…”







"... Segura teu filho no colo sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui, que a vida é trem bala parceiro e a gente é só passageiro prestes a partir..." 💔

câncer,

Vivendo o sofrimento.


"Qual seria o papel do sofrimento? Só nos curamos de um sofrimento depois de suportá-lo até o fim. Acredito que o sofrimento seja como uma sala de aula, um curso preparatório que devemos frequentar para possibilitar mudanças... Quando fugimos do sofrimento e buscamos fórmulas milagrosas para abreviá-lo, estamos na verdade lutando contra milhões de anos de evolução. Viva então o sofrimento como um encontro pessoal lindo com aquilo que você é. Aproveite para escrever, refletir, descansar. Lutar contra o sofrimento cansa, enquanto aceitá-lo e entendê-lo descansa. E saiba que dele podemos renascer, não necessariamente mais fortes, mas certamente mais preparados para a nova fase".

Sabrina França


Estou aqui. Vivendo todo meu sofrimento.
Chorando tudo que precisa ser chorado.
Hoje separamos as roupas dela, levamos fraldas, remédios, colchão e algumas roupas pra doação em um asilo. As outras roupas dividimos entre nós. Minhas tias ficaram com bastante coisa.
Foi muito difícil mexer nas coisas dela e pensar que ela se foi. Foi muito difícil pegar os batons, os colares, as blusas que ela gostava...foi muito difícil estar ali sem ela.
Fiquei achando muito injusto. Injusto o sol nascer, a vida seguir. Injusto que eu tenha bons momentos, que eu ria, que eu coma, que eu viva. Sem ela aqui.
Fiquei pensando em tudo que ela queria e não teve.
Em como ela queria viver. 
Eu preciso pensar em tudo isso, preciso sofrer tudo isso, chorar tudo isso. Pra poder seguir em frente. E é o que tenho feito.

cancêr,

Minha mãe se foi...




Minha mãe descansou.
Foi encontrar com Jesus.

Tudo se resume a Dor, sofrimento, exaustão e mais sofrimento.
De todas as formas possíveis.
Ela passou o último mês completamente dependente, sem andar, sem conseguir sentar direito, e com poucos momentos de lucidez. E passou a última semana internada, sem conseguir falar, abrindo pouco os olhos. Vivemos o temido Estagio Terminal, e nesse momento nós passamos do: "Meu Deus ajude minha mãe a melhorar" para o "Meu Deus, por favor, recolha minha mãe para que tudo isso acabe..."
Vê-la indo embora foi a coisa mais difícil que já vivi na vida. Por mais "preparada" que eu estivesse, por mais que eu tenha lido, estudado sobre a doença, por mais que eu tenha acompanhado casos na internet...eu não estava pronta pra tanta dor. Ela foi se apagando dia após dia. Perdendo movimentos, lucidez, dormindo cada dia mais, até partir.
Meu Deus.
Essa doença, a qual eu nunca tinha ouvido o nome antes de acometer minha mãe. GLIOBLASTOMA MULTIFORME. Esse é o pior câncer que existe, é a doença mais triste e devastadora que já vi na vida.

Não estou questionando Deus, ou tentando entender porque isso aconteceu com ela, com a gente. Não. No momento só estou grata pq ela não está mais sofrendo, pq ela foi encontrar o Senhor, pq ela está livre de toda dor, doença e lágrimas.
Que o Senhor traga consolo pra todos nós.


"Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. "
1 Tessalonicenses 4:13-14

"O justo perece, e ninguém pondera
isso em seu coração;
homens piedosos são tirados,
e ninguém entende
que os justos são tirados
para serem poupados do mal. Aqueles que andam retamente entrarão na paz;
acharão descanso na morte. "
Isaías 57:1-2

mãe,

MAIS UMA COROA PARA A MINHA RAINHA


E hoje além de dia das Mulheres é o dia da mulher da minha vida
Difícil escrever sobre a minha mãe.
Primeiro pq lá em casa nunca fomos dados a demonstrações de afeto, a declarações, abraços e beijos. E segundo pq falar da minha mãe me dá um nó no estômago e uma vontade louca de chorar, e eu detesto chorar. rsrs.

Minha mãe. Dona Silvia. 
Essa é Mulher com M maiúsculo. M de mãe, M de maravilha, M de mágica. Nunca foi pra passeata, nunca queimou sutiã, mas taí uma mulher forte.  Uma super heroína? Não. Não diria isso. Minha mãe não é perfeita, nunca fingiu ser, nem nunca me fez acreditar que eu era. Com a gente sempre foi assim, pé no chão.

Aprendi desde cedo que podia contar com minha mãe. E sempre foi assim. Eu ligava pra ela quando ia matar aula, todos mentiam pra suas mães, eu contava pra minha. Ela soube de todas minhas paixonites e paqueras. Ela soube quando dei meu primeiro beijo aos 13 anos, e quando perdi a virgindade aos 16. Me ensinou sobre sexo, sobre atos e consequências. Me falou sobre drogas. Nada nunca foi um tabu, talvez por isso eu nunca tenha sentido vontade de experimentar certas coisas. E tudo que fiz e experimentei ela soube. E não se enganem achando que essa "liberdade" era sinônimo de falta de autoridade. Jamais. O segundo nome de dona Silvia é Hitler kkkkkk. Até hoje se precisar ela me dá umas cintadas. Se ela dizia: chegue as 22 hs, eu chegava as 22. Se ela dissesse NÃO, era não. E ponto final. Sempre foi assim. Dona da última palavra, um olhar sempre bastou pra cortar nossas asas. 
E assim crescemos. 
No meio de muita festa, brigas, risos,verdade e uma boa dose de lutas. Pq a vida não foi fácil. Não mesmo. Minha mãe trabalhou muito, deve ter chorado bastante, afinal ser mãe solteira nos anos 80 não era uma coisa simples e tranquila. A lembrança que carrego dela é de uma mulher que estava sempre trabalhando, ia de um plantão pra outro, e muitas vezes fazia faxinas ou trabalhava em restaurantes. E nada nunca me faltou. Depois veio um casamento, minha irmã, e a vida ficou mais tranquila. 
Minha mãe em casa, mas nunca parada. 
Inquieta, o tempo todo limpando, costurando, pintando, falando, brigando, rindo. Enfim. Espanhola, cheia de personalidade. 
Com ela aprendi a andar com minhas próprias pernas, aprendi que preciso assumir as consequências de meus atos, aprendi a acreditar, a ter fé, a buscar a Deus em primeiro lugar. Aprendi que a vida é isso aí, a gente tem que enfrentar. 

Hoje é difícil imaginar minha vida sem ela. Pq mesmo longe geograficamente, ela é uma presença constante. Seja no telefone ou no whatszap. É difícil visita-la e vê-la cada vez mais quieta e sonolenta. Enfrentando um dia por vez. Com fé. 
Ela não é mais a mesma, nem nunca mais vai ser. 
Essa doença levou um pouco dela, e leva um pouco mais a cada dia. E é por isso que acho esse câncer o pior de todos. Pq ele vai sequestrando a pessoa de si mesma, e de todos ao seu redor. É difícil. Não gosto de pensar nisso, não gosto de falar sobre isso. As vezes prefiro fugir e fingir que ele não está ali. Na verdade nenhum de nós nunca mais será o mesmo. Sabemos disso.

Tenho enfrentado a vida assim: um dia por vez. 
Novo dia, novas lutas, nova Graça. 
Agradecendo a Deus por cada segundo que minha mãe passa conosco, por cada dia que ela acorda consciente, mesmo que fragilizada. Deus tem sido bom. E só temos a agradecer.

Eu sei que pouca coisa importa tanto quanto as miudezas de uma vida com ela. Seja o comentário sobre algo na televisão, uma mensagem engraçada no whatszap. A foto de um macaco ou de um cachorro. Até o "alô, oi filha" já é um pedaço de céu. E como vai ser quando só restarem as lembranças e o silêncio? Não quero pensar. 

Deus permitiu que ela comemorasse mais um aniversário, mais um ano. E isso é motivo de toda alegria. Minha oração hoje é de gratidão, e meu pedido é que eu realmente valorize cada momento, que Deus permita que ela fique aqui mais tempo, e que quando ela se for, Ele me fortaleça pra suportar.