dor,

Um ano voando sem ela...

Um ano sem minha mãe, minha amiga, minha referência de vida e na vida.
Um ano voando sozinha por esse mundo.
Difícil continuar sem ela, ainda tenho muito de filha em mim, sinto falta das conversas, do dia a dia.
Da presença.
A presença que permanece nas lembranças diárias, nos presentes espalhados pela casa, em cheiros, lugares e programas de TV. E no meu reflexo no espelho.

É a presença constante, com o vazio da ausência.
E isso dói todos os dias, e vai doer pra sempre.
E está tudo bem.
Pq faz parte da vida. Deus nos dá o lado feio pra que possamos valorizar o belo. Eu já disse antes e repito: se eu pudesse escolher não ter passado por toda essa dor, com outra mãe. Eu optaria por passar por tudo isso com a minha. Pq a dor de sua ausência não é maior do que as boas lembranças, do que os 36 anos que pude viver com ela.
Dói não tê-la aqui, hoje um ano depois não é mais desesperador, descobri que sou mais forte do que imaginava, mas ainda assim dói.

Nesse um ano sem minha mãe aprendi muito.
Fecho esse ciclo muito mais forte, mais fiel a mim mesma, valorizando o que realmente significa e vivendo tudo com mais intensidade, pois hoje carrego em mim a lição da vulnerabilidade da vida. Tudo pode mudar em um piscar de olhos.

E quando isso acontece, vc não se lamenta pelos diplomas que não obteve ou pelo dinheiro que não guardou, vc se lamenta pelas viagens que não fez, os assuntos que não finalizou e os sentimentos que não viveu.
Vc se lamenta pelo tempo perdido com mediocridades, pelos livros que não leu, os abraços que deixou de dar...

Por isso digo: Valorize o que é eterno, esteja rodeado de pessoas do bem, não force relacionamentos abusivos, não se contente com a insatisfação e frustração, recomece sempre, não tema parecer boba, perdoe, peça perdão, se livre das mágoas, zere sua conta, cuide de você e das pessoas que caminham contigo.

E não esqueça: 

Deus é bom o tempo todo.
A vida é sincera.
O que vc plantar, colherá.
E só fica o que significa.

"De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças. "
Cecília Meireles

clone,

Queria ter um Clone



Se eu tropeçasse em uma lampada mágica meu pedido ao gênio certamente seria: Quero ter um Clone. Não um clone qualquer, queria um clone verdadeiro, fisicamente, emocionalmente, de corpo e alma.
Nossa comunicação seria por telepatia, ou por troca de olhares e expressões. Sem palavras. Tudo que eu vivesse, ele viveria. Quando eu estivesse com dor de cabeça, por exemplo, ele também teria. Então juntos distribuiríamos grosserias e resmungos a todos ao nosso redor, juntos tomaríamos uma pílula e deitaríamos no escuro esperando passar. Ele entenderia minha irritação, mas não diria nada. Nem "que droga", nem "poxa vida", nem desejaria melhoras, nem faria cara de pena, nem se ofereceria pra ajudar em qualquer coisa. Apenas sentiria minha dor em silêncio, em solidariedade e compreensão.

Quando eu estivesse sem sono, ele estaria sem sono. E nós conversaríamos, riríamos, praguejaríamos até que os sonhos viessem. Nós sonharíamos as mesmas coisas, as mesmíssimas coisas. Acordaríamos no outro dia comentando o acontecido como quem comenta um filme bom, só que de forma ainda mais intensa, porque não vivenciamos bons filmes como vivenciamos bons sonhos. E nestes estaríamos lado a lado. Só nós dois compreenderíamos a verdadeira emoção de estar sendo perseguido por um lobisomem, ou de voar por todo lugar, ou o medo de estar em um elevador que nunca para. Eu saberia, ele saberia, e ninguém mais saberia. Ficaríamos felizes por causa disso, e nos ofenderíamos quando o resto do mundo negasse importância aos nossos devaneios. Mas balançaríamos a cabeça em sincronia, com dó e um pouco de desgosto, porque pobres deles que eles não estavam lá para entender…

Quando eu quebrasse uma xícara, ele quebraria outra – nós dividiríamos os olhares feios do resto da casa. E eu varreria os cacos, e ele juntaria os cacos com uma pá. E se eu ferisse meu pé num caquinho, ele se feriria noutro igual. Do mesmo formato, do mesmo tamanho. E sentiria a mesma pontada, e faria a mesma careta. Quando andássemos deixando poças de sangue pela casa, e as pessoas lançassem aquele olhar espantado, diríamos que quase não dói. Foi só um furinho, bem pequeno, não foi? Ele saberia.

Quando eu estivesse cansada, ele também estaria. Nos sentaríamos em qualquer calçada, em qualquer lugar. Talvez até tirássemos um cochilo, porque é bom tirar cochilos em companhia de alguém tão igualmente desesperado por cochilos. Nos levantaríamos na mesma hora, e seguiríamos andando, para o mesmo destino. Sem precisar trocar informações. Sem precisar chegar a acordos, sem precisar ceder vontades, sem precisar verbalizar motivos; apenas iríamos para onde quiséssemos, faríamos o que quiséssemos, e saberíamos que o outro sempre estaria lá.

Quando eu falasse sobre meus cachorros, ele também falaria sobre os dele. Com o mesmo brilho nos olhos, com o mesmo sorriso idiota, com a mesma empolgação de criança. Passaríamos tardes falando sobre cachorros, e rolando no chão com cachorros, e iríamos aos parques com eles. Não nos chatearíamos, porque gostaríamos de cachorros do mesmo jeito, e perder uma tarde dessa maneira apenas soaria correto.

Quando eu estivesse entediada, ele também estaria entediado. Não teríamos vergonha de nossas manias de velhos, portanto sorriríamos um para o outro em cumplicidade. Teríamos aquela estranha impressão de que o tédio não deve ser punido, mas lentamente apreciado. Não nos obrigaríamos a encontrar meios de matá-lo, como geralmente acontece entre pessoas ociosas. Contaríamos cada interminável segundo em branco, juntos, até que estes resolvessem partir. Porque nos sentiríamos confortáveis no silêncio, e no vazio, e na inércia mental, enquanto os outros se sentiriam aflitos.
Os outros, os bobos, os que não amam as coisas simples. Mas eu amaria, e ele amaria.

Viveríamos os melhores e os piores dias. Faríamos de tudo juntos, sempre da mesma maneira, com os mesmos resultados. Seríamos felizes e tristes ao mesmo tempo, radiantes e pessimistas também. Dividiríamos as mesmas alegrias, as mesmas desgraças, as mesmas realizações ou frustrações, com desapego e cuidado mútuos.

Então, quando eu finalmente cansasse dele, ele também já estaria cansado de mim. Longas despedidas, brigas, desculpas ou aborrecimentos não nos caberiam. Estaríamos acima disso, superiores a toda essa pequenez estafante, a toda essa balela melodramática. Nos entregaríamos num compreensivo abraço desinteressado, como consentimento silencioso, ordenando que cada um seguisse seu caminho. Sem olhar duas vezes para trás. Em direções opostas, exatamente opostas, já que tudo um dia cansa mesmo. Eu saberia, e ele saberia. Como ninguém mais poderia saber.


(Autor desconhecido, com algumas mudanças feitas por mim)

mãe,

Sobre perdas.





Perda.
Essa foi uma palavra que ouvi bastante nos primeiros dias após a partida da minha mãe. 
"Sinto muito por sua perda", uma frase que muitos falavam, seguida daquela expressão de pena, um abraço e um silêncio desconfortável.
Esse é o problema da morte.
As pessoas não sabem como agir,as pessoas não sabem o que dizer, e acabam repetindo o que acham que deve ser dito. 
"Ela está em um lugar melhor" - mas eu queria ela aqui.
"Ela foi uma heroína" - ela não precisava morrer pra ser.
"Ela estará sempre com você" - desculpa, isso não alivia em nada a minha DOR.
"Seja forte" - ok, apertarei o botão da força aqui.
"Sinto muito por sua perda". 
Vamos lá, vamos analizar esse termo. 

No dicionário "perda" é:

1.ato ou efeito de perder (alguém).
2.privação de uma coisa (alguém) que se possuía.
3.ausência, falta, desaparecimento.

Creio que sejam definições bastante precisas. Exceto pelo fato que a morte de alguém que vc ama, no meu caso, minha mãe, não causará sua ausência. Minha mãe continua por toda parte. Nos programas de tv que ela gostava, nas lembranças que o facebook trás, nas piadas que sei que ela riria, no toque do telefone pela manhã, e está principalmente no meu rosto todas as vezes que olho no espelho. 
Ela continua presente. Dolorosamente presente. 
Pq sim, ela está aqui. Mas ela não está aqui. 
E hoje, após quase um ano, isso é totalmente administrável. Mas as vezes, no meio do dia, uma onda me atinge e sinto um vazio absurdo no peito, um vazio que se instalou desde que ela morreu. A perda faz isso, vc consegue conviver, manter a cabeça acima d´água na maior parte do tempo, vc está bem seguindo sua vida, sorrindo, leve e em paz e de repente é como se alguém enfiasse o dedo na ferida e apertasse com toda a força. Momentos em que a tristeza vem de repente e com força. Sorrateira e ardilosa, chega sem avisar e a gente só se dá conta quando sente o coração apertado e o nó na garganta. 
A vulnerabilidade da vida. 

Uma das frases mais tolas que já ouvi, e que as pessoas repetem como se fosse verdade, é:
"O tempo ameniza a dor" - Não, a dor permanece a mesma, ela não ameniza. Inclusive as saudades aumentam conforme os dias passam. Mas vc aprende a lidar. Vc aprende a seguir em frente, aprende a enxergar o que não pode ser mudado com resignação. Você consegue até mesmo seguir em paz e se conformar. Mas a dor permanece. Em alguns dias ela virá como lembranças boas, de forma nostálgica e tranquila.
Em outros dias ela virá dilacerante, com muito choro.
E vc deve aprender a respeitar cada dia. Quer chorar? chora.
Tudo bem que já faz um ano, dois, cinco, dez. 
Chora.
Chora tudo que tiver que chorar, se abrace, sinta profundamente. Depois levanta, lava o rosto e segue em frente.

O que aprendi até aqui?
Aprendi que a gente só entende certas coisas quando vivencia. 
Aprendi que muitas vezes não preciso dizer nada, um abraço e um "estou aqui" valem mais do que frases de efeito. 
Aprendi que o tempo ensina, mas não muda, nem apaga cicatrizes.
Aprendi que minha vida nunca mais será a mesma. 
Essa é minha nova realidade. Sou uma filha, sem mãe. E serei assim pra sempre. E sentirei falta pra sempre. E vai doer pra sempre. 
Estarei com 60 anos e sentirei uma dorzinha sempre que olhar minhas amigas de 60 anos com suas mãezinhas de 90. Pq a minha não estará do meu lado, apesar de estar presente na minha vida, lembranças e coração. Pra sempre. 





dor,

Dor e gratidão


"Pacientemente sentei e esperei que a chuva cessasse (...). 
O calor veio aos poucos e o céu foi limpando com o tempo (...). 
O meu céu ficou azul, então... e aqui já não chove mais.”


Dia 08/11 fará seis meses que minha mãe se foi. 
Na verdade faz mais tempo, porque ela começou a ir bem antes. Até antes do diagnóstico, quando pensamos que ela estava entrando em depressão, tememos que ela estivesse com Alzheimer precoce. Esquecimentos, tristeza, choros desproporcionais, medos, confusões. 
Parece que foi ontem. De um dia pro outro tudo mudou.
Ela foi indo embora aos poucos. 
Por um lado foi bom poder ter esse tempo pra aproveitar, pra nos despedir todos os dias, pra curtir cada momento. Por outro lado foi devastador ver minha mãe deixando de ser ela mesma. 
Não me esqueço de nenhum momento, desde o diagnóstico, exames, hospital, cirurgia, quimioterapia, rádio, recidiva, os momentos finais, até a última vez que olhei nos seus olhos. 
Mas com muita alegria posso garantir que são as outras lembranças que tomam conta do meu coração. As lembranças dos dias felizes, sem doença, ou dos dias que esquecíamos da doença. E Deus nos agraciou com tantos bons momentos!

Todos os dias eu me lembro.
Seja por causa de uma música, um programa na TV, um "Bazzinga" do Sheldon, uma imagem de macaco, uma gracinha das cachorras, um filme de monstros ou uma comida que faço, algo que conheço...Me lembro dela nas pequenas coisas do dia a dia. Tenho ímpetos de telefonar todas as vezes que algo acontece na minha vida. Me lembro dela todas as manhãs, que era quando nos falávamos pelo telefone. 
As vezes, como hoje, essas lembranças transbordam pelos olhos e eu choro. Na maior parte dos dias essas lembranças tiram de mim um suspiro, em alguns momentos até um sorriso. 
Mas todas as vezes dói.

No entanto, a dor é felizmente muito diferente da depressão. 
Ela é triste, terrível, mas não deixa de ter sua esperança. A morte da minha mãe me abalou imensamente, mas não me mergulhou em trevas insuportáveis. Nunca perdi o desejo de viver, apenas por não tê-la aqui. E encontrei verdadeiro consolo em Deus e Sua palavra, também no amor do meu marido, da minha família, amigos e até de estranhos. Deus é bom!

Recentemente estive em Rio Preto, foi a primeira vez desde que ela morreu. 
Eu estava com medo, haviam centenas de lugares que eu receava ir, por estarem tão repletos de lembranças dela. Mas foi bom estar nesses lugares. Eu senti como se fosse mais uma fase do luto pra atravessar. Estar com minha irmã, meu padrasto, no apartamento, na casa das minhas tias, passar em frente a sacaria, as ruas onde ela andava, tudo me lembrava ela, e o que achei que seria dilacerador foi de certa forma confortante. Não sei explicar.
É um misto de dor e gratidão. 
Dói não ter minha mãe, mas sou imensamente grata pelo tempo que tive. Por tudo que vivemos, fizemos e sentimos. Por todas as lembranças. As boas que me fazem sorrir, e as tristes que me fazem mais forte. 

Hoje enquanto escovava os dentes, depois de uma tarde de muito choro, pude perceber que estou feliz. As coisas estão voltando ao lugar. 
Vezenquando chove por aqui, mas isso não é motivo de infelicidade. Me sinto cada dia mais forte. E sei que amanhã será mais fácil do que hoje, porque hoje foi mais fácil que ontem.

O tempo acaba trazendo o alívio. 
Mas ele não se apressa, e essa espera é uma incrível escola de crescimento pessoal. 


"E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem esperança;
E eu quero é andar por esses caminhos para ser a prova viva do que acontece quando a gente tem perseverança."

vida

Eu estou bem, e tá tudo bem.



As pessoas não estão preparadas pra lidar com a dor do outro. E as pessoas também não estão preparadas pra lidar com a superação do outro. Várias vezes vivenciei situações onde as pessoas demonstram piedade por mim, mas não de uma forma bacana,não empatia ou compaixão. É pena. Sentem pena pq perdi minha mãe pra uma doença horrível, pena pq passei por todo sofrimento do diagnostico e a doença. Pena pq não tenho um filho. Pena pq decidimos não adotar um filho.
Ao mesmo tempo que as pessoas não estão prontas pra suportar quando você desaba, elas tbm não estão prontas pra superar sua alegria apesar de toda tragédia que você viveu. 

A morte é inevitável. Você vai passar por isso. Iremos todos.
É triste, é dilacerador. Ver a partida de uma pessoa que você ama te machuca de uma maneira irreparável. No caso da minha mãe, a morte diária, o perecimento da carne, das idéias, da lucidez. Foi triste, foi devastador.

Mas a vida segue.

As tragédias são inevitáveis. A doença que chega silenciosa, o fracasso no trabalho, a vida financeira que desaba, a esterilidade, as dores, os acidentes. É difícil, ninguém quer passar por nada disso. Mas acontece.

É normal ficar triste, é normal chorar, é normal passar dias sem querer sair do quarto, é normal ter depressão, precisar de um psicólogo ou de um medicamento. Tá tudo bem. 

Mas a gente também consegue ser feliz de novo. Ser feliz apesar de tudo.
A gente consegue pegar toda essa tristeza e transformar em aprendizado. 

Parece quase um crime pra alguns, mas eu garanto que dá pra ser mulher e ser plena mesmo sem um filho. Dá pra ser uma família sendo apenas um casal e seus cachorros. 
E eu garanto que dá pra acordar e passar um dia inteiro sem chorar mesmo tendo perdido a pessoa mais importante da sua vida.
Cada um tem uma maneira de lidar com as tragédias. 
Eu lido assim. Eu passo por elas. 
E tá tudo bem. Tudo sempre fica bem. 

E se você nunca passou por isso, vai aí um conselho de uma mulher sem filhos, que já perdeu os avós, o melhor amigo, alguns tios, alguns cachorros e a mãe: Se acostume com o fato de que você passará por isso em algum momento. Se prepare. Prepare a alma, a lucidez, o desapego.

Um dia você tem tudo e no outro pode não ter nada.
Você precisa estar bem ancorado pra não se perder.
Se prepare de forma prática pras adversidades: plano de saúde, seguro de vida, plano funerário, testamento. 
Se fortaleça espiritualmente, fale com Deus. Tenha esperança.
As tragédias chegam. Na nossa vida, na vida dos nossos próximos, nos não tão próximos, na vida dos ídolos que nos inspiram. 
Ela vem.
E nada de dizer: deixe disso, bate na madeira. 
Ela vem.
A vida é assim.
E se você quiser sobreviver, você vai ter que encarar de forma leve, vai ter que superar, vai ter que passar por isso inteira. 
Assim como eu fiz. 

reflexões,

Treino pesado, coração leve.



Quando entrei na academia Overall a primeira vez, há menos de um ano, me senti totalmente deslocada, me vi em meio a mulheres lindas e homens enormes, e pensei: "o que estou fazendo aqui?". Mas depois de várias tentativas frustradas eu estava decidida a não desistir. Dessa vez eu iria até o fim. 

No começo me refugiava no aeróbio, onde me sentia segura. 
De vez em quando arriscava um treino de leve. 
Me despi de meus preconceitos e fui percebendo que as pessoas ali eram muito mais do que corpos bonitos,passei a admirar e a me inspirar em cada um.

No início do ano decidi levar mais a sério e tentar gostar de verdade da musculação, mas havia uma pedra no meio do caminho. Uma pedra na vesícula. Pedra retirada, 3 meses de repouso e em abril voltei com tudo. 
Bom,quase com tudo. 
Passei por um turbilhão, a recidiva do câncer de minha mãe, sua piora diária, passei semanas sem pisar na academia,e então no final de maio, após a tempestade, voltei. 
E de lá pra cá só aumenta a certeza de que escolhi o melhor caminho. 
Hoje a academia não é apenas o lugar onde eu treino. Virou parte da minha vida, minha terapia. 

Eu percebi que só dependia de mim. Idade, hipotireoidismo,coluna lascada, doença e morte da minha mãe eram só algumas desculpas que eu poderia usar. Poderia me esconder atrás delas e fugir. Mas eu decidi fazer isso por mim. 
Porque Deus me deu um corpo com um emaranhado incrível de músculos e sistemas (circulatório, respiratório), potentes e incríveis, que obviamente não foram feitos pro sedentarismo. O treino intenso, a exaustão,as pernas bambas,o coração na boca. Aquela sensação de "vou morrer, não aguento mais" que seu corpo responde com: "Continue, você aguenta sim.Muito mais". 
Eu amo isso. Isso me faz um bem absurdo, que vai muito além do físico. 

Há uma certa alegria em encostar o meu queixo no nariz e respirar fundo. 
Gosto de sentir as dores no corpo que o treino pesado me trouxe. Gosto de sentir que há vida. 
Gosto de me sentir viva. 
Tenho passado meus dias assim, bem viva. 
Com aquela sensação de que tenho seguido em frente. 
Cada dorzinha que sinto na musculatura me lembra exatamente disso. Que estou viva. Que a vida segue. Que estou me amando, me cuidando, vencendo meus limites.
Que eu não desisti.
Que amanhã é um novo dia, e eu vou novamente dar conta do dia.
Dar conta do sorriso.Da coluna alongada. Do treino intenso. Da calma na alma e do olhar tranquilo. Em paz. 



Não quero faca, nem queijo. Quero a fome. (A.Prado)


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Sustento do Alto


Vai fazer 5 meses que minha mãe foi encontrar com o Senhor, e minha vida tem sido de esperança e gratidão. Dor e lágrimas. Tenho plena convicção da soberania de Deus e descanso em Seu amor.
A dor é imensa e tem dias que choro rios e oceanos inteiros. Mas depois de muito chorar encontro consolo na certeza do reencontro e nas boas lembranças de tudo que vivemos. .


Se eu tivesse a chance de não passar por tudo isso porém tendo outra mãe, outra vida. Eu negaria. Pois tudo de maravilhoso que vivi com minha mãe em meus 36 anos de vida superam a dor de sua partida!! Todos os valores, tudo que aprendi, são maiores que o sofrimento.
E continuo aprendendo.
Sua doença, sua morte e o luto tem sido um período de aprendizado intenso, estou nas mãos do Oleiro, sendo quebrada e moldada, cada cicatriz me lembrará da Graça e Misericórdia de Deus, que sempre esteve (está ) comigo. Mesmo quando não consigo ver. ❤


Outono - Os Arrais

Eu olho para o monte de onde vem o meu socorro
Mas a espera desta vez é diferente outra vez

É mais escura, mais vazia

hoje a noite é bem mais fria
E na Palavra eu fiz morada
achei descanso na jornada sim

Provado fui com fogo mas onde está o ouro?

Sei: somente uma fé que se abalou inabalável é

E irei sim carregar as cicatrizes que irão provar

Que estive em batalhas que ninguém me viu lutar aqui

Que esta melodia me recorde destes dias

Em que mesmo sem sentir Sua presença
eu sei que estava aqui.



"Remember this, had any other condition been better for you than the one in which you are, divine love would have put you there. " (Spurgeon)

reflexões,

Resiliência



Estava pensando sobre superação, resiliência.
Não me lembro muito de tudo que já passei. Esses dias andei pensando nisso, lembrei de algumas coisas. De como a casa em que cresci era simples, móveis velhos, a cozinha não tinha nem forro. Me lembro do quarto dividido com minha mãe e 2 tias. As coisas amontoadas, livros velhos. Lembrei que até os 5 anos dividia a cama com minha mãe, e logo cedo ela ia trabalhar e eu pulava pra cama dos meus avós. E eu gostava de tudo isso. Refrigerante era coisa de fim de semana. Jantar fora só se fosse no quintal. TV era uma pequena pra casa toda. Telefone um luxo que demoramos a ter. Lembro da casa de chão vermelho que fomos morar depois, lembro da minha mãe encerando com gosto, ariando as poucas panelas, fazendo toalhas pra cobrir os móveis velhos e riscados. Lembro das roupas e perfumes que revezávamos. A casa se desfazendo de velha, as idas ao brechó e loja de móveis usados.
Lembro que eu escrevia muito em cadernos, até ganhar uma máquina de datilografar usada pra escrever os livros que nunca terminei. Ficaram nas caixas de papelão embaixo da cama.
Lembro da Mari brincando com meus brinquedos velhos. Lembro que trocava a educação física pra trabalhar na biblioteca da escola em troca de livros. Lembro que juntava dinheiro por meses pra comprar um jeans. Lembro que apesar de tudo isso nunca tive vergonha de levar meus amigos na minha casa, ainda que eles morassem em coberturas e já tivessem ido pra Disney, eu nunca tinha ido nem no Play center.
Lembro da cama que dormi da infância até sair de casa aos 27 anos. Lembro que alugava livros pois não tinha grana pra comprar. Lembro que passava horas na biblioteca pública lendo. Lembro que gastei meu primeiro salário em livros do King e cds do Raul Seixas. Lembro do meu primeiro computador aos 19 anos, que paguei em 12 vezes. Lembro do meu primeiro celular pago com dificuldade.
Lembro do milagre que eu fazia com o dinheiro pra bancar as xerox da faculdade. Lembro de quando meu vô foi embora. E depois minha vó. E lembro que tudo pareceu estranho sem eles.  Lembro que eu conheci o mar aos 24 anos.
Lembro que a vida melhorou depois que casei. Móveis e roupas novas. Viagens, jantares fora . Lembro que nada disso aplacava a dor das saudades.
Lembro qdo meu cachorro morreu aos 15 anos, e eu estava longe.
Lembro quando meu melhor amigo morreu e eu também estava longe.
Lembro da dor.
Lembro quando meu tio morreu e eu percebi que as pessoas estavam indo embora.
Lembro de quando minha mãe começou a ficar confusa. Lembro da ressonância que mudou nossa vida. Lembro de como tive medo.
Lembro da minha irmã chorando. Minhas tias desesperadas. Lembro das filas no hospital, das visitas. Lembro da minha mãe falando coisas sem nexo. Lembro de sentar no chão aguardando notícias da cirurgia. Lembro que tudo acalmou depois. Lembro do casamento da minha irmã, lembro da minha mãe entrando andando e sorrindo.
Lembro de me permitir pensar que tudo ficaria bem.
Lembro da angústia durante a radioterapia e quimioterapia. Lembro de cada visita a minha mãe e o medo de ser a última.
Lembro da última vez que conversei com minha mãe de verdade. Lembro da confusão voltando, da sensação de derrota que eu senti.
Lembro das noites em claro com ela, lembro dos banhos, troca de fraldas. Lembro do vazio. Lembro da última internação. Lembro da última vez que ela me olhou. Lembro da última vez que a toquei. Lembro dos seus olhos fechando.
Lembro da dor.
Lembro do desespero.
Lembro da despedida, do choro. Da terra caindo no caixão fechado.
Lembro de pensar na minha infância e de no meu coração ser tudo perfeito. Lembro de querer trocar todo o luxo de hoje pela vida simples e difícil que tivemos.
Lembro com clareza das saudades, pois são constantes.
Superar não é esquecer.Superar é lembrar com coração leve.
Superar é assumir a responsabilidade de quem você é, e como você vive.
Superar é seguir a vida.
É continuar sorrindo, continuar tentando, continuar.
Apesar de tudo.



A nossa história é construída no tempo, e é necessário que, com a maturidade, aprendamos a olhar para trás (ou para a frente, sei lá) e ver que quem somos é o resultado de tudo o que vivemos e do que fazemos com os erros e acertos, com os risos e os choros, com as alegrias e as dores, com as batalhas que vencemos e perdemos. Somos quem podemos ser, como diz a canção, e isso é a um só tempo, limitação e possibilidade!! Eis a beleza da vida!! Saudade é, em suma, lembrar! (Celso Boaventura )

reflexões,

Calma na Alma




Tenho sido feliz sendo eu mesma.
Silenciosa e introspectiva. Lendo sozinha, rabiscando ideias.
Estou aprendendo a lidar com meus sentimentos.
Tenho sido feliz mesmo quando percebo que por dentro há uma ferida, uma dor que vez ou outra transborda pelos olhos.
Tenho sido feliz na minha rotina.
Tem sido bom me exercitar, vencer meus limites, me alongar inteira, sentir meu corpo dolorido e vivo.
Tenho sido feliz usando meus cremes: para os olhos, para o rosto, pra hidratar a pele, os cabelos, as mãos.
Tenho sido feliz cozinhando coisas simples, tomando café enquanto assisto vídeos bobos.
Tenho aceitado cada vez mais as minhas manias. Meu jeito estranho, meio doce, meio azedo, meus gostos peculiares, meu humor sarcástico e minha sensibilidade.

Tenho sido feliz. Apesar das dores, das lutas, das saudades.
Tenho encontrado descanso e consolo pro meu Espírito quando me coloco nos braços do Pai. Esse sim, me renova, me abraça, me consola.
Tem faltado um pouco de poesia, mas sobrado vontade de fazer a vida colorida, de ter mais fé e seguir em frente.



A gente acha que não consegue atravessar o deserto da tristeza, que a tempestade nunca acaba, que a lágrima não cessa, que a dor não passa... Mas, aí Deus vem, nos dá calma pra tristeza, ameniza a tempestade, consola a lágrima, tranquiliza o coração e, pacifica o nosso ser, mesmo quando achamos que tudo é impossível.
Fran Ximenes.

amor,

Dia dos namorados

Não precisei de muitos anos para perceber que você era o amor da minha vida, na verdade bastaram alguns dias. Um final de semana na selva de pedra. Não sei explicar como tudo isso aconteceu,mas me lembro de abrir os olhos pela manhã e ter a certeza de que havia encontrado meu lugar. Foi tudo tão natural, que fui vivendo impulso por impulso sem pensar muito, apenas sentindo. 
Muitos acharam que era uma loucura, muitos julgaram como apenas uma aventura. 
Mas nós sempre soubemos. Não é verdade? Um beijo e tudo fez sentido.
Um fim de semana e todas as dúvidas foram embora.


Eu agradeço por nunca ter tido com você uma relação morna, meio mais ou menos, uma relação desconfortável e cheia de duvidas. Entre a gente tudo sempre fluiu naturalmente, confortavelmente, intensamente. Até nossas desavenças são confortáveis, pq existe respeito, pq ouvimos um ao outro, pq nos acolhemos. 

 Sobrevivemos a distância, a julgamentos, a "torcida contra", cinco mudanças estaduais, perrengues financeiros, algumas "tempestades e naufrágios". E chegamos longe né? 
Do primeiro beijo tímido no aeroporto de SP, até o beijo que demos no carro pela  manhã foram quase 11 anos. E que assim seja pra sempre.  Namorados, companheiros, cúmplices, melhores amigos. ❤️ 

Não precisamos comemorar o dia dos namorados, pq namoramos todos os dias. ❤️


Te Amo amor. 

eu por mim mesma,

Paradoxal



Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo.
Sou amplo, contenho multidões.
(Walt Whitman)

Sou ampla. 
Contraditória.
Ao mesmo tempo, coerente.
Sou duas, quatro, dez! Um paradoxo.
Aquela que aguenta o tranco, e aquela que chora. 
A que ama intensamente e a que  esquece em um piscar  de olhos. 
A que se interessa e a que desiste. 
A intelectual que assiste reality show. 
A nerd que gosta da bagunça do fundão.
A careta que ama tatuagens.
A Raul seixista que não bebe.
Sou sensível e amo filmes de terror. 
Amo os animais e não sei cuidar de plantas. 
Sou a leitora compulsiva que ama musculação. 
A corajosa que tem medo de tudo. 
A medrosa que se arrisca.
A menina que recua e a mulher que se impõe. 
A timidez que cala e a risada que desnuda. 
A que ama ficar sozinha e detesta a solidão. 
A pessimista que tem fé. 
A reservada. A que se abre. 
A questionadora cheia de certezas.
Enfim, não tento fazer sentido. Mas faço questão de sentir. 
Sentir por inteiro, intensamente. 
E eu sinto.


"Deus conserve pra sempre meu bom senso temperado a pitadas de loucuras."

câncer,

É preciso seguir em frente.


Quase um mês.
Quase um mês que parte de mim foi embora. 
Que perdi meu porto seguro, a pessoa que eu buscava pra tudo, minha amiga, minha mãe. 
Quase um mês vivenciando o luto.
Durante o luto, tudo dói. Há dias em que é quase insuportável permanecermos em nós mesmos.
E dói de tantas maneiras, e de uma forma tão profunda que eu acredito que seja impossível descrever. 
Dói por dentro, rasgando o peito. 
Dói silenciosamente. 
Dói o tempo todo, todos os dias. 

Vamos seguindo a vida, vivendo nossa dor em uma realidade paralela.
As vezes me parece injusto que a vida siga seu rumo como se nada tivesse acontecido. Como se um coração não tivesse parado de bater. Como se eu não estivesse destroçada por dentro.
O sol nasce e se põe. As pessoas trabalham, as louças se sujam, filmes são lançados, vamos as compras. A vida segue. 
A nossa vida segue. No momento em que tudo acontece parece que o tempo para, e a sensação é de que você nunca mais vai conseguir sorrir, nunca mais vai querer conversar, mas não é assim a dor do luto. Ela não é paralisante, Ela é constante. Pelo menos por aqui tem sido assim. Uma dorzinha constante que aparece em qualquer hora do dia, uma vontade de gritar que você engole, as lágrimas que teimam em vir aos olhos quando as lembranças chegam. E elas chegam. 

Me sinto sozinha. Me sinto órfã. Apesar de ser uma mulher adulta e casada. Me sinto órfã. 
Cadê minha mãe? quem vai me ajudar agora? É engraçado, pq ela vinha sendo cuidada pela gente, nos últimos dias estava totalmente dependente, e ainda assim eu me lembro claramente de nos momentos de troca de fralda, meus olhos encontravam os dela e eu sentia que podia passar por isso. Ela me fortalecia, mesmo sem dizer nada. 
No último dia antes dela ser sedada, ela já não falava, eu conversei com ela segurando em sua mão, ela estava me entendendo, mas não conseguia falar. Eu disse a ela pra descansar, que ficaríamos bem. Ela apertou minha mão, sorriu e chorou. E foi a última vez que meus olhos encontraram seus olhos. Que eu senti seu toque. 

É difícil perder alguém que você ama.
É muito difícil perder uma mãe.
É muito difícil e pesado perder a mãe pra um câncer.
É muito difícil, pesado e devastador perder a mãe para um tumor cerebral como o GBM.
Pq do começo ao fim você sofre. Você luta contra todos os terríveis prognósticos. Você tenta ter esperança mesmo com tantas notícias ruins. Você sofre no diagnóstico. Sofre durante a cirurgia interminável. Sobre durante a rádio e as quimioterapias. Sofre ao pegar cada resultado de ressonância. E você passa o tempo todo temendo pelos momentos finais. 
Só entende o que estou dizendo quem já passou ou passa por essa luta.

Eu pedi muito a Deus que aliviasse seu sofrimento, que seus últimos dias fossem abreviados, não queria ver minha mãe em uma sonda, sofrendo dia após dia até partir. E Deus atendeu minhas preces. Mesmo assim é difícil. Por mais que você se prepare, você não está pronto. Por mais que você espere que isso vá acontecer no fundo você ainda tem uma esperança de que um milagre ocorrerá e tudo voltará a ser como antes dessa doença. 

Conforme os dias passam a saudade só aperta, tudo me lembra minha mãe, sinto um aperto no peito várias vezes ao dia.
EU sempre soube que seria difícil, mas nunca imaginei que seria tão difícil. 
Tem sido um período de mudanças, descobertas e muito aprendizado.
E é um processo íntimo, individual e solitário. 
O luto precisa ser vivido, para não vivermos de luto.
Eu aprendi que preciso chorar. E eu tenho chorado. Não existe nada que traga maior alívio do que deixar as lágrimas caírem. Do que vivenciar os momentos de dor cara a cara. Depois das lágrimas vem aquela sensação de paz, uma saudade cheia de amor, recheada de lembranças gostosas, e eu me pego sorrindo ao lembrar de coisas que vivemos. 
E pronto, lavo meu rosto e estou pronta pra seguir a vida. 
Esse é o ciclo que funciona pra mim. 
Encarar o sofrimento, chorar a dor, sentir a paz e seguir a vida.
Aprendi que ser feliz não implica em não haver nenhuma dor.
Aprendi que ser forte não é ser frio. Ser forte é passar pela dor, chorar a dor, encarar a dor e seguir em frente. 

Minha mãe sempre foi minha melhor amiga. 
Sempre fez todo o sentido que ELA fosse minha mãe. Não poderia ser outra pessoa. 
Não pq ela era perfeita, ela nunca foi, nem nunca fingiu ser. Mas pq sempre fomos uma dupla. Sempre funcionou. E funcionou até o último dia. 

Existe vida após o luto. 
Uma vida mais consciente de que o tempo é curto, de que os amigos verdadeiros sempre estarão do seu lado, que família é tudo, e sobretudo a certeza de que Deus continua sendo bom apesar de tudo. 
Usando as palavras de meu marido, Celso: É preciso viver o luto, para não viver de luto. As horas tristes permeiam as horas de alegria, e a isso chamamos vida! E passamos por isso! A dor e o consolo nos formam, transformam, nos conformam a Cristo! São dEle os dias mais felizes, assim como são dEle os dias mais tristes! E Ele é bom. E cuida de nós.


"Por sobre a estrada amanheceu e anoiteceu.
E eu vi que os dias mais sombrios também são Teus...
O fogo me queimou, mas me aqueceu.
A luz que me cegou, me fez ver Deus...
Minha'alma se fartou, sem água e pão...A mãe da esperança é a provação..."
Estevão Queiroga - música A partida e o Norte

dor,

Feliz dia das mães.

"Mãe é parceira das horas certas e também incertas. É ombro nos arrependimentos e bronca construtiva nas escolhas mal feitas. Mãe é censura e também ternura, cheiro de afeto e lembrete de “engole o choro”, intuição abundante e oração incessante.

Ao nos lembrar de nossas mães, nos lembramos de quem fomos. Pois a construção e lapidação de nossa existência se confunde com antigos sons chamando no portão, cheiro de perfume conhecido borrifado nos pulsos, lembrança de arrumar a cama e tirar os pés do sofá, assobio afinado, vestido lavado e delicadeza em forma de cuidado.

Não há saudade maior que saudade de mãe. Pois mãe muda de casa, mas não sai de dentro da gente. Mãe muda de estado, mas não se desliga. Mãe percebe que o filho cresceu, mas não desiste. Mãe carimba passaporte, mas não sai de perto da gente." 
(Fabíola Simões - A soma de todos os afetos)


Meu primeiro dia das mães sem minha mãe aqui. 
Eu já conhecia as saudades da distância geográfica, mas nada se compara a não tê-la mais aqui. Nunca mais ouvirei sua voz, nunca mais receberei uma ligação ou mensagem de whatsapp, nunca mais. 
Ficam as lembranças das coisas simples, o aperto no peito quando vejo algo que ela gostava, a sensação de estar sozinha no mundo sem ninguém pra me direcionar. 
Quem vai cuidar de mim agora? 
Meu consolo vem de Deus, que é soberano e cuida dos seus. Meu consolo vem da certeza de que ela está com o Senhor. Minha paz vem do sentimento de "missão cumprida". Eu amei minha mãe e fui amada com toda intensidade e verdade possível. Sempre muito próximas, dividindo tudo. Minha mãe se foi e nossa conta estava zerada, sem mágoas, sem nada mal resolvido, sem mentiras e principalmente sem QQ dúvida do amor que sentíamos.

Se eu puder te dar um conselho, filho (a) que tem sua mãe aqui, nesse dia das mães, em vez de um presente material, sente-se com sua mãe, e feche a conta. Coloque na mesa as mágoas, segredos, e se resolvam. E principalmente não deixe de dizer e mostrar com atitudes que a ama. ❤️

Minha mãe, hoje eu gostaria de lhe oferecer uma música da minha infância. Está tudo tão distante, mas o refrão ainda ecoa em meus ouvidos. Tudo que eu mais queria era poder cantar de novo: “Mamãe, mamãe, mamãe, eu me lembro o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo, se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo…”







"... Segura teu filho no colo sorria e abraça os teus pais enquanto estão aqui, que a vida é trem bala parceiro e a gente é só passageiro prestes a partir..." 💔

câncer,

Vivendo o sofrimento.


"Qual seria o papel do sofrimento? Só nos curamos de um sofrimento depois de suportá-lo até o fim. Acredito que o sofrimento seja como uma sala de aula, um curso preparatório que devemos frequentar para possibilitar mudanças... Quando fugimos do sofrimento e buscamos fórmulas milagrosas para abreviá-lo, estamos na verdade lutando contra milhões de anos de evolução. Viva então o sofrimento como um encontro pessoal lindo com aquilo que você é. Aproveite para escrever, refletir, descansar. Lutar contra o sofrimento cansa, enquanto aceitá-lo e entendê-lo descansa. E saiba que dele podemos renascer, não necessariamente mais fortes, mas certamente mais preparados para a nova fase".

Sabrina França


Estou aqui. Vivendo todo meu sofrimento.
Chorando tudo que precisa ser chorado.
Hoje separamos as roupas dela, levamos fraldas, remédios, colchão e algumas roupas pra doação em um asilo. As outras roupas dividimos entre nós. Minhas tias ficaram com bastante coisa.
Foi muito difícil mexer nas coisas dela e pensar que ela se foi. Foi muito difícil pegar os batons, os colares, as blusas que ela gostava...foi muito difícil estar ali sem ela.
Fiquei achando muito injusto. Injusto o sol nascer, a vida seguir. Injusto que eu tenha bons momentos, que eu ria, que eu coma, que eu viva. Sem ela aqui.
Fiquei pensando em tudo que ela queria e não teve.
Em como ela queria viver. 
Eu preciso pensar em tudo isso, preciso sofrer tudo isso, chorar tudo isso. Pra poder seguir em frente. E é o que tenho feito.

cancêr,

Minha mãe se foi...




Minha mãe descansou.
Foi encontrar com Jesus.

Tudo se resume a Dor, sofrimento, exaustão e mais sofrimento.
De todas as formas possíveis.
Ela passou o último mês completamente dependente, sem andar, sem conseguir sentar direito, e com poucos momentos de lucidez. E passou a última semana internada, sem conseguir falar, abrindo pouco os olhos. Vivemos o temido Estagio Terminal, e nesse momento nós passamos do: "Meu Deus ajude minha mãe a melhorar" para o "Meu Deus, por favor, recolha minha mãe para que tudo isso acabe..."
Vê-la indo embora foi a coisa mais difícil que já vivi na vida. Por mais "preparada" que eu estivesse, por mais que eu tenha lido, estudado sobre a doença, por mais que eu tenha acompanhado casos na internet...eu não estava pronta pra tanta dor. Ela foi se apagando dia após dia. Perdendo movimentos, lucidez, dormindo cada dia mais, até partir.
Meu Deus.
Essa doença, a qual eu nunca tinha ouvido o nome antes de acometer minha mãe. GLIOBLASTOMA MULTIFORME. Esse é o pior câncer que existe, é a doença mais triste e devastadora que já vi na vida.

Não estou questionando Deus, ou tentando entender porque isso aconteceu com ela, com a gente. Não. No momento só estou grata pq ela não está mais sofrendo, pq ela foi encontrar o Senhor, pq ela está livre de toda dor, doença e lágrimas.
Que o Senhor traga consolo pra todos nós.


"Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e com ele, aqueles que nele dormiram. "
1 Tessalonicenses 4:13-14

"O justo perece, e ninguém pondera
isso em seu coração;
homens piedosos são tirados,
e ninguém entende
que os justos são tirados
para serem poupados do mal. Aqueles que andam retamente entrarão na paz;
acharão descanso na morte. "
Isaías 57:1-2