reflexões,

Resiliência



Estava pensando sobre superação, resiliência.
Não me lembro muito de tudo que já passei. Esses dias andei pensando nisso, lembrei de algumas coisas. De como a casa em que cresci era simples, móveis velhos, a cozinha não tinha nem forro. Me lembro do quarto dividido com minha mãe e 2 tias. As coisas amontoadas, livros velhos. Lembrei que até os 5 anos dividia a cama com minha mãe, e logo cedo ela ia trabalhar e eu pulava pra cama dos meus avós. E eu gostava de tudo isso. Refrigerante era coisa de fim de semana. Jantar fora só se fosse no quintal. TV era uma pequena pra casa toda. Telefone um luxo que demoramos a ter. Lembro da casa de chão vermelho que fomos morar depois, lembro da minha mãe encerando com gosto, ariando as poucas panelas, fazendo toalhas pra cobrir os móveis velhos e riscados. Lembro das roupas e perfumes que revezávamos. A casa se desfazendo de velha, as idas ao brechó e loja de móveis usados.
Lembro que eu escrevia muito em cadernos, até ganhar uma máquina de datilografar usada pra escrever os livros que nunca terminei. Ficaram nas caixas de papelão embaixo da cama.
Lembro da Mari brincando com meus brinquedos velhos. Lembro que trocava a educação física pra trabalhar na biblioteca da escola em troca de livros. Lembro que juntava dinheiro por meses pra comprar um jeans. Lembro que apesar de tudo isso nunca tive vergonha de levar meus amigos na minha casa, ainda que eles morassem em coberturas e já tivessem ido pra Disney, eu nunca tinha ido nem no Play center.
Lembro da cama que dormi da infância até sair de casa aos 27 anos. Lembro que alugava livros pois não tinha grana pra comprar. Lembro que passava horas na biblioteca pública lendo. Lembro que gastei meu primeiro salário em livros do King e cds do Raul Seixas. Lembro do meu primeiro computador aos 19 anos, que paguei em 12 vezes. Lembro do meu primeiro celular pago com dificuldade.
Lembro do milagre que eu fazia com o dinheiro pra bancar as xerox da faculdade. Lembro de quando meu vô foi embora. E depois minha vó. E lembro que tudo pareceu estranho sem eles.  Lembro que eu conheci o mar aos 24 anos.
Lembro que a vida melhorou depois que casei. Móveis e roupas novas. Viagens, jantares fora . Lembro que nada disso aplacava a dor das saudades.
Lembro qdo meu cachorro morreu aos 15 anos, e eu estava longe.
Lembro quando meu melhor amigo morreu e eu também estava longe.
Lembro da dor.
Lembro quando meu tio morreu e eu percebi que as pessoas estavam indo embora.
Lembro de quando minha mãe começou a ficar confusa. Lembro da ressonância que mudou nossa vida. Lembro de como tive medo.
Lembro da minha irmã chorando. Minhas tias desesperadas. Lembro das filas no hospital, das visitas. Lembro da minha mãe falando coisas sem nexo. Lembro de sentar no chão aguardando notícias da cirurgia. Lembro que tudo acalmou depois. Lembro do casamento da minha irmã, lembro da minha mãe entrando andando e sorrindo.
Lembro de me permitir pensar que tudo ficaria bem.
Lembro da angústia durante a radioterapia e quimioterapia. Lembro de cada visita a minha mãe e o medo de ser a última.
Lembro da última vez que conversei com minha mãe de verdade. Lembro da confusão voltando, da sensação de derrota que eu senti.
Lembro das noites em claro com ela, lembro dos banhos, troca de fraldas. Lembro do vazio. Lembro da última internação. Lembro da última vez que ela me olhou. Lembro da última vez que a toquei. Lembro dos seus olhos fechando.
Lembro da dor.
Lembro do desespero.
Lembro da despedida, do choro. Da terra caindo no caixão fechado.
Lembro de pensar na minha infância e de no meu coração ser tudo perfeito. Lembro de querer trocar todo o luxo de hoje pela vida simples e difícil que tivemos.
Lembro com clareza das saudades, pois são constantes.
Superar não é esquecer.Superar é lembrar com coração leve.
Superar é assumir a responsabilidade de quem você é, e como você vive.
Superar é seguir a vida.
É continuar sorrindo, continuar tentando, continuar.
Apesar de tudo.



A nossa história é construída no tempo, e é necessário que, com a maturidade, aprendamos a olhar para trás (ou para a frente, sei lá) e ver que quem somos é o resultado de tudo o que vivemos e do que fazemos com os erros e acertos, com os risos e os choros, com as alegrias e as dores, com as batalhas que vencemos e perdemos. Somos quem podemos ser, como diz a canção, e isso é a um só tempo, limitação e possibilidade!! Eis a beleza da vida!! Saudade é, em suma, lembrar! (Celso Boaventura )

2 comentários

Celso Boaventura disse...

A nossa história é construída no tempo, e é necessário que, com a maturidade, aprendamos a olhar para trás (ou para a frente, sei lá) e ver que quem somos é o resultado de tudo o que vivemos e do que fazemos com os erros e acertos, com os risos e os choros, com as alegrias e as dores, com as batalhas que vencemos e perdemos. Somos quem podemos ser, como diz a canção, e isso é a um só tempo, limitação e possibilidade!! Eis a beleza da vida!! Saudade é, em suma, lembrar!!
Mais um belo texto, amor!

Anônimo disse...

Acho que já li 3 ou 4 vezes esse post. Porque ver assim a história acontecer faz a gente pensar: "É apenas a vida, desoladora, curadora da alma, incrível, horrível e comum. E ele é Bela!" L.Knost. Lendo assim, por momentos, dá esperança, fé, e ver o cuidado de Deus me anima a crer que Ele nunca falta em nenhum de nossos dias. Bjos. Amo tu. Marta Andrade.