mini-historinhas muito, muito velhas
por Priscila.
Escreveu, com caneta prateada, na capa do álbum de fotografias: ‘nós dois e o tempo em que fomos felizes’. Em seguida, rasgou todas as fotos.
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Se pudesse fugiria, correria em direção àquele raio de luz que entrava pela fresta e lhe aquecia as antenas, fazia brilhar suas asas. A opção lógica, porém, era permanecer seguro no esconderijo. Suportava a solidão entorpecendo-se diariamente com pequeninos pedaços daquilo que os humanos chamavam de inseticida.
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Dizia “eu te amo” com a mesma entonação e postura de quem pedia desculpas. Como se entrasse num santuário, os olhos baixos, o coração retorcido, uma vontade de cair no chão de joelhos. Dizia “eu te amo” em silêncio, como quem teme o desconhecido.
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Formavam um casal silencioso, de rotina acomodada e sexo mediano. Um dia houve um incêndio na cidade, que acabou por matar todos os habitantes, exceto o homem e a mulher, que resolveram aproveitar o colorido das chamas (um sinal?) para amar-se abrasadoramente no telhado prestes a ruir.
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Achava-se feia e então beijava o antebraço, enquanto pensava no homem mais lindo com que podia sonhar. Fechava os olhos para não ver que era o próprio corpo que lhe proporcionava o prazer que tão insistentemente buscava nos outros. Quando enfim foi beijada pelo mais lindo dos homens teve tamanho medo daquela invasão, daquele outro corpo tomando uma parte do seu. E descobriu-se apaixonada por si mesma.
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Acreditava nunca ter sido amado como era capaz de amar. Um dia não agüentou e deu 5 tiros naquela que havia sido a primeira namorada, ao vê-la atravessando a rua de mãos dadas com outro cidadão. Ao delegado não respondeu uma única pergunta. Olhava para o teto e, com a ponta do sapato, desenhava um coração torto no chão poeirento, que seria varrido pela faxineira cerca de 50 minutos depois de o terem liberado, por falta de provas. O namorado da vítima, consternado, acusava o delegado de ter aceito discretamente uma gorda propina paga pela abnegada e misteriosa Sra. Helena Fernandes, ‘que não tinha entrado na história’.
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Fim

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