No fundo, esperamos muito que todos os gestos que trazemos, entreabertos, encontrem - num só alguém - a sua redenção (que, de uma vez, nos leve do dia em que ganhou luz e cor, em nós, ao ano novo). Mas nem sempre um ano novo afasta todas as nuvens do olhar (como, afinal, tantos foguetes nos levariam a supor).
Porque é que, apesar de ser Janeiro todos os anos, parece ser - tão poucas vezes - ano novo?
Pode um adeus ser motivo de festa ou de euforia? Pode. Se tanta exaltação trouxer... alívio. Mas, se for assim, tantos estrondos coloridos não são de boas-vindas. Nem trazem consigo a respiração, ofegante, que nos atrapalha antes, ainda, de o nosso coração compreender que a vida insiste em ser nossa namorada.
Por mais que os anos se renovem, estar vivo é nunca dizer adeus. É inventarmo-nos, sem deixarmos de ser tudo o que somos. Por força do brilho, colorido, de um namoro, que nos torne mais fáceis e mais bonitos. Já mudar de vida é tudo o que sobra quando falta com quem nos transformarmos. Quem dera, pois, que - a partir de hoje - o novo ano nos proibisse, a todos, de namorar para casar. E nos ensinasse, com o esplendor de um clarão, que namorar é confiarmo-nos (a quem abra janelas onde, antes, parecia só haver sítios escurecidos). Sem precisarmos, nunca, de saber onde nos leva. Namorar - para que nos leve, directamente, ao ano novo - faz-se de paixão e de logo se vê!... Não se planeia: aceita-se. Com medo e com júbilo, mas de surpresa. Desfia-se, para além do sonho e da vontade, e é - digamos assim - um compromisso feito, unicamente, entre um coração e o seu, irreverente, palpitar. Mesmo que amarrote por dentro. E que engasgue. E nos ponha a dizer parvo!... sempre que apetece, de mansinho, dizer gosto de ti... Namorar torna-nos comoventes e audazes. Tontos, brincalhões e ternurentos.
Eduardo Sá
* O tempo segue sempre o tempo. Sempre o amanhecer depois da noite. O olá depois do adeus. É hora de otimizar o sonho. Abafar todos os nós que atravessam os pulsos. Haverá mais a sentir. Um sonho a substituir o outro. Um número a apagar o outro. Sem esquecer. Sempre a querer. Mais relógios a quebrar. Vamos arranhar as horas e deixar o mundo entrar. Acordar num novo ano e permanecer além da espera. *
Feliz Ano Novo!


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